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Política

Protestos ajudaram na virada de Lula, mas governo precisa de ‘revolução na comunicação’

João Alves | Publicado em: - Atualizado 4 horas atrás

Manifestantes da UFF no Centro do Rio
Após atos em Niterói, estudantes da UFF se concentraram no Centro do Rio. Foto: Fernando Frazão / EBC

Especialistas comentam que mobilizações foram essenciais para ditar a reação da campanha petista, mas não garantiram sozinhas a vitória no 2° turno. Ambiente virtual ainda é dominador na política.


O dia era 5 de outubro, uma segunda-feira, quando estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF), na cidade de Niterói, deixaram a faculdade para realizar um ato de resposta à vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL) no 1° turno de eleições, que terminou à frente do presidente Lula (PT) por 2 milhões de votos. Essa foi a primeira de uma sequência de mobilizações no município que, segundo especialistas, inspirou a campanha do presidente a reagir e buscar a virada que se concretizaria no 2° turno. Mas será que a ida às ruas foi realmente o que reelegeu Lula à presidência? Na ciência política, a análise final pode ser bem mais complexa comparado ao que foi vendido durante a campanha petista.

O 1° turno de eleições ocorreu no dia 4 deste mês. Ao fim da apuração, Flávio Bolsonaro garantiu 47,03% dos votos, somando pouco mais de 56 milhões de eleitores, contra 45,16% de Lula, que chegou a pouco menos de 54 milhões de votos.

Gráfico mostra crescimento de Lula.
Foto: Imagem ilustrativa com apoio de Inteligência Artificial (IA).

Em comparação ao 2° turno, Lula conquistou cerca de 10 milhões de votos em apenas três semanas, saindo da eleição como presidente mais votado da história da República. Já Flávio Bolsonaro teve um aumento de pouco mais de 3 milhões de eleitores em relação à primeira etapa do confronto, quando saiu vencedor.

Especialistas na ciência política apontam que o resultado, no entanto, esteve longe de ser reflexo apenas da mobilização real, mas teve muito de seu êxito atribuído ao ambiente virtual. Nas redes sociais, o canal de WhatsApp ‘Exército do Lula’, criado por iniciativa do deputado federal André Janones (Rede-MG), reuniu em publicações, até o dia 25, cerca de 10 milhões de seguidores.

Durante a campanha e depois de ser reeleito, Lula afirmou em público que a mobilização nas ruas o inspirou a pensar em ‘uma nova forma de fazer política’, dando a entender que o futuro novo mandato carregará a promessa de mais manifestação nas ruas por parte dos apoiadores e com foco maior na juventude por parte das medidas governamentais.

Protesto na UFF deu início à virada

A mobilização antibolsonarista começou em Niterói, na Região Metropolitana do Rio, menos de 24 horas após o fim da apuração do 1° turno de eleições, quanto estudantes da UFF se organizaram em frente ao prédio do curso de Direito da universidade para se manifestarem contra Flávio Bolsonaro.

Um dos organizadores do movimento, o estudante de Direito Alan Gabri El declarou que o movimento ocorreu de forma orgânica, já que os próprios estudantes tinham vontade de se mobilizar, mas não estavam totalmente organizados. A organização do protesto ocorreu, segundo ele, em poucas horas em um grupo de WhatsApp do curso.

Segundo o estudante, a movimentação foi essencial para criar ânimo na militância e chamar atenção de instituições, exaltando a importância que a prefeitura municipal deu aos movimentos pró-Lula após o dia 5 de outubro.

‘O que posso afirmar, a partir da experiência que vivemos, é que as ruas tiveram um papel fundamental na organização e no fortalecimento de uma reação democrática. Nós vimos estudantes que nunca tinham participado de uma manifestação se envolvendo, produzindo materiais, mobilizando colegas, conversando com eleitores e participando de atos’, disse Gabriel.

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Foto: Associação dos Docentes da Universidade Federal Fluminense / Divulgação

Mobilizações já ditaram o curso do país

Não é de 2026 que a mobilização nas ruas dita a forma que o governo federal vai se comportar, ou até mesmo cair. Em um passado bastante recente, o país coleciona uma série de momentos onde a ida do povo às ruas gerou impacto suficiente para gerar uma necessidade de reação do governante e de sua base aliada.

Dos protestos pela redemocratização até o ano de 2026, o Brasil teve pelo menos quatro mobilizações decisivas para o país em um recorte de aproximadamente quatro décadas. Entre elas, não por acaso, duas tiveram impacto direto no processo de Impeachment de um presidente da República.

Diretas Já

Em 1983, o Brasil vivia os últimos anos do governo de João Batista Figueiredo, o último general-militar da República. Naquele ano, em Goiás, era realizado a primeira mobilização da população pelas ‘Diretas Já’, que pedia a redemocratização do país através da realização de eleições diretas.

Naquele período, em meio à Ditadura Militar (1964-1985), os brasileiros viviam o auge da inflação, uma forte crise econômica e recessão.

Foi um ano depois, em 1984, que o movimento político e popular entrou para os livros de História. No país inteiro, com destaque para a Candelária, no Rio de Janeiro, e a Praça da Sé, em São Paulo, comícios reuniram milhares de brasileiros, que foram às ruas pedir pelo direito de escolher o próximo presidente da República.

Apesar do forte apelo político e popular, o Diretas Já não resultou na redemocratização imediata do sistema de governo, mas teve impacto direto na criação da Constituição de 1988, que possibilitou na realização de eleições presidenciais um ano depois. Em 1985, Tancredo Neves (MDB) foi eleito presidente do Brasil, de forma indireta, ao lado do vice José Sarney.

Caras-pintadas

Antes de 2026, outro movimento estudantil que mobilizou o Brasil foi realizado pelos ‘Caras-pintadas’, estudantes que se organizaram e foram às ruas pedindo pelo Impeachment do presidente Fernando Collor de Mello.

Após o confisco das poupanças em 1990, a repúdia ao caçador de marajás teve seu auge, dois anos depois, em meio à crise econômica que o país passava e as denúncias de corrupção sobre o caso PC Farias, acusado de ser chefe de um esquema de desvio de dinheiro e propina.

Na tentativa de enfrentar a crise, Collor pediu que apoiadores do governo fossem às ruas de verde e amarelo. No lugar, os caras-pintadas — estudantes vestidos de preto e com os rostos pintados, mobilizaram o país em protesto que culminou no Impeachment.

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Foto: Unesp / Divulgação

O movimento foi relembrando, inclusive, no último final de semana antes do 2° turno, às vésperas da definição das eleições, quando a União Nacional dos Estudantes (UNE) convocou os caras-pintadas de volta às ruas contra o bolsonarismo.

Jornadas de Junho

Mais de duas décadas depois do Caras-pintadas, o Brasil vivia a primeira grande mobilização social contra o governo petista desde que Lula assumiu a presidência em 2002. As Jornadas de Junho foram manifestações em 2013, no final do primeiro mandato da presidente Dilma, que trouxeram às ruas pessoas revoltadas com o aumento da tarifa do transporte público de São Paulo, que saiu de R$ 3,00 para R$ 3,20.

Nos atos, populares do Brasil inteiro apontavam contradições sobre o aumento da passagem e do custo de vida enquanto o país se organizava financeiramente para sediar a Copa das Confederações, onde a seleção brasileira saiu campeã, e a Copa do Mundo de 2014, que aconteceria no ano seguinte.

Segundo dados divulgados pela PM e pelo instituto Datafolha na época, o auge da mobilização, que ocorreu em 20 de junho, em São Paulo, aproximadamente 100 mil pessoas foram aos protestos. Naquele ano, os principais atos se davam entorno do Movimento Passe-Livre (MPL).

Mas além da reivindicação de direitos, um dos eventos mais marcantes da onda de protestos ligada ao aumento da tarifa veio poucos meses depois, já em 2014, quando o cinegrafista Santiago Ilídio Andrade, da Rede Bandeirantes, acabou morto, atingido por um rojão, enquanto cobria um protesto no Centro do Rio.

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Foto: Marcelo Camargo / EBC

Movimento anti-Dilma enche a Paulista

Já em 2015, na crise do segundo mandato do Governo Dilma, o antipetismo formou um movimento de massa também capaz de movimentar a população e mudar os rumos da política brasileira pela próxima década.

O Movimento Passe-Livre (MPL), que deu início na organização das Jornadas de Junho dois anos antes, se fragmentou em organizações de oposição ao petismo. Foi o caso do Movimento Brasil Livre (MBL), que ajudou a organizar a oposição para as mobilizações antipetista na Avenida Paulista.

No auge dos protestos, em março daquele ano, a PM estimou aproximadamente 1 milhão de pessoas ocupando a via. O Datafolha, no entanto, alegou na época um número bem mais reduzido: cerca de 210 mil pessoas.

Na Avenida Paulista, de verde e amarelo, as pessoas pediam pelo Impeachment da presidente Dilma Rousseff, enquanto acusavam o governo de envolvimento na Operação Lava-Jato. A estética patriótica dos movimentos seriam apropriada pouco tempo depois pelo bolsonarismo.

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Em frente ao Fiesp, manifestantes pediam pelo Impeachment apoiados no slogan ‘Não vou pagar o pato’. Foto: Rovena Rosa / EBC

Exército do Lula

Em uma era onde o digital importa tanto quanto o real, André Janones foi um dos primeiros da campanha de Lula neste ano a tomar iniciativa para construir uma rede de mobilização on-line. Nas redes sociais, o deputado federal passou a utilizar o canal de WhatsApp ‘Exército do Lula’, criado em abril, para instruir os eleitores sobre estratégias e orientações sobre como engajar positivamente os conteúdos relacionados ao presidente.

A mudança de postura se deu principalmente após a vitória de Flávio Bolsonaro no 1° turno, quando Janones passou a estabelecer metas e ‘missões’ para os seguidores do canal, chegando pouco a pouco em 10 milhões de seguidores. Posteriormente à virada de Lula, a campanha do presidente colocou o parlamentar como peça fundamental para a reeleição.

Além das missões, Janones utilizou as redes para evidenciar e fazer vitrine das mobilizações que ocorreram nas três semanas até o 2° turno, incluindo as manifestações estudantis da UFF, em Niterói.

A resposta: Bloquinho do Nikolas

Em resposta à mobilização a favor de Lula, a campanha do PL passou a se organizar virtualmente e presencialmente através do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) — parlamentar com maiores números de engajamento da sigla.

Nas redes, a ‘Tropa do Flávio’ aparecia como espaço virtual para rivalizar diretamente o Exército do Lula, enquanto nas ruas, os apoiadores de Flávio Bolsonaro compareciam nos chamados ‘Bloquinhos do Nikolas’ (ou ‘Bloquinhos do 22’, dependendo da região), onde os bolsonaristas se reuniam em clima de micareta.

Mas afinal, foram as ruas que reelegeram Lula?

Para elucidar o debate, o professor João Feres, titular de ciência política do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da UERJ, ajudou a destrinchar a caminhada de Lula à reeleição e o papel das manifestações da vitória das eleições.

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Janja, Lula e André Janones em foto divulgada no canal de WhatsApp. Foto: Exército do Lula

Para ele, as manifestações pró-Lula nada valeriam se não fosse a vitrine virtual criada por André Janones nas redes sociais. João Feres compara, inclusive, a mobilização petista deste ano à campanha de 2018 e diz que é mistificada a visão de que a tendência de ir às ruas possa substituir a mobilização on-line.

‘Há, por razões óbvias e históricas, um certo fascínio desses setores com os movimentos sociais de protesto, o que chamam carionhosamente de “o povo nas ruas”. Na eleição de 2018 houve o Ele Não*. Massivo, mas o resultado foi totalmente inverso, alimentou os enquadramentos bolsonaristas que dominavam a comunicação digital’, disse o professor.

*Ele Não foi uma forte mobilização antibolsonarista nas eleições de 2018, quando Jair Bolsonaro se candidatou à Presidência do Brasil.

Outros fatores garantiram a vitória

Além do engajamento pelo meio virtual, Roberto Dutra, professor de sociologia da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), indentificou outros fatores cruciais, segundo ele, para definir o resultado a favor da reeleição de Lula.

De acordo com o docente, a chegada do senador Camilo Santana (PT-CE), do senador eleito Rui Costa (PT-BA) e do governador do Piauí Rafael Fonteles (PT) reorganizou as estratégias da campanha, principalmente sobre a imagem de Lula, que passou a ganhar uma postura mais leve.

Somado a isso, o afastamento de Janja do presidente e maior participação do vice-presidente Geraldo Alckmin contribuíram para equilibrar a visão do eleitorado indeciso sobre Lula.

Futuros governadores atrapalharam no Sudeste

Roberto Dutra afirma ainda que outros dois pontos que ajudaram a conquistar votos no Sudeste brasileiro — região onde o PT mostrou dificuldade de reunir votos nos últimos anos: a definição em 1° turno para o governo dos estados e erros cometidos pelo adversário.

Segundo Dutra, os três principais estados do sudeste tiveram definição para governador antes de chegar no 2° turno das eleições: o Rio de Janeiro, com Douglas Ruas (PL); São Paulo, com Tarsício de Freitas (Republicanos); e Minas Gerais, com Cleitinho (Republicanos).

Eleicoes 2026 Comparativo do Sudeste
Foto: Imagem ilustrativa com apoio de IA.

A definição antecipada do trio de governadores, que se elegeram com cerca facilidade, impactou na desmobilização de bolsonaristas nos três estados.

No 2° turno, o sudeste foi a região onde Lula mais conseguiu aumento de votos, inclusive virando sobre Flávio Bolsonaro em Minas Gerais, onde tinha perdido na primeira votação.

Flávio Bolsonaro errou

O segundo fator que contribuiu para garantir votos no sudeste, de acordo com Roberto Dutra, foram os erros cometidos por Flávio Bolsonaro após a vitória no 1° turno das eleições.

Para o professor, o filho mais velho de Jair Bolsonaro mostrou uma qualidade ‘péssima’ para debater ao vivo com Lula, onde a linha ‘agressiva’ e ‘debochada’ não conveceram o eleitor que estava mais indeciso.

Segundo informações de bastidores, e divulgadas pela Folha de São Paulo, Flávio Bolsonaro recebeu orientações para mudar a postura para o debate contra Lula na TV Globo por conta de repercussões internas negativas após o debate entre presidenciáveis na Band.

A orientação teria partido de Duda Lima, chefe de campanha do senador à presidência, que entendeu que a postura combativa de Flávio havia gerado desconforto no eleitorado feminino.

Governo precisa de ‘revolução na comunicação’

Em consenso, tanto João Feres, quanto Roberto Dutra chegaram a uma conclusão: não haveria vitória sem destaque para a campanha virtual, uma vez que as atividades nas ruas foram aproveitadas pelo ambiente on-line.

‘É importante trabalhar com a dicotomia de virtual e o real. O virtual também é real. São duas realidades distintas’, disse Dutra.

Questionado se a volta da manifestação na rua pode se tornar tendência para desbancar o mundo conectado, João Feres afirmou que não acredita que o feito do 2° turno se repetirá nos próximos quatro anos de Governo Lula.

‘Elas ocorreram no período eleitoral do segundo turno, bastante curto, e a missão era mobilizar as pessoas para salvar a democracia. Durante os quatro anos de governo, a lógica é outra’, disse o docente.

Quando perguntado se o ambiente das redes também transforma a mobilização em refém de um algorítmo, o professor concluiu afirmando que o caso é uma ‘aporia’:

João Alves

Amante do cinema, se descobriu no jornalismo através de conversas e boas histórias. É focado em contar os relatos de quem vive o dia a dia no Rio de Janeiro, sempre atento às denúncias dos leitores.

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