Nas últimas semanas, mais uma “grande previsão” tomou conta das redes sociais. A promessa era digna de roteiro de ficção científica: extraterrestres apareceriam para abduzir jogadores da Seleção Brasileira e outras pessoas presentes em um estádio. A data chegou. Nada aconteceu. Mas a pergunta que realmente merece nossa atenção não é por que alguém fez uma previsão tão extravagante. A questão é outra: por que tanta gente deu palco para isso?
Vivemos uma época em que o absurdo engaja mais do que o sensato. Quanto mais extraordinária a afirmação, maiores as chances de virar manchete, viralizar e conquistar milhares de curtidas, compartilhamentos e convites para programas de televisão. O problema é que, quando isso acontece no universo da espiritualidade, todos pagam a conta.
Quem trabalha seriamente com Tarot, Baralho Cigano, runas, búzios, astrologia ou qualquer outro sistema oracular sabe que espiritualidade não é espetáculo. Oráculos não foram criados para alimentar o sensacionalismo, mas para oferecer reflexão, orientação e autoconhecimento. Essa talvez seja a maior confusão dos nossos tempos: transformar tendência em sentença.
Previsão absoluta x leitura de possibilidades
Na minha compreensão, não existe previsão absoluta. Existe leitura de possibilidades. Existe tendência energética. Existe a percepção de caminhos que podem se fortalecer ou enfraquecer conforme nossas escolhas. Afinal, existe algo que nenhuma carta, entidade ou oráculo pode anular: o livre-arbítrio.
No mundo espiritual, dois mais dois nem sempre são quatro. Uma decisão tomada hoje pode modificar completamente um cenário apresentado ontem. Uma mudança de comportamento pode alterar uma tendência. Uma oração, uma mudança de consciência, uma nova atitude… tudo isso interfere na construção da realidade. É justamente por isso que previsões apresentadas como fatos consumados merecem ser vistas com cautela.
Não porque seja impossível acessar informações espirituais, mas porque ninguém possui domínio absoluto sobre o futuro.
Quando profissionais afirmam datas exatas para acontecimentos improváveis ou fazem promessas extraordinárias sem qualquer responsabilidade, acabam alimentando uma visão caricata da espiritualidade. E, quando essas previsões inevitavelmente não se concretizam, o descrédito não recai apenas sobre quem as fez. Ele atinge também milhares de profissionais sérios que estudam durante anos e trabalham com ética.
Consumidores da mentira
O mais preocupante, porém, talvez nem seja quem faz esse tipo de afirmação. É quem consome.
Estamos aprendendo a questionar ou apenas compartilhando aquilo que nos choca? Estamos buscando conhecimento ou apenas entretenimento? Estamos interessados na espiritualidade ou no espetáculo?
A verdadeira espiritualidade dificilmente grita. Ela não precisa de manchetes mirabolantes para existir. Ela transforma em silêncio, orienta com responsabilidade e nos lembra, diariamente, que o futuro não é uma fotografia pronta. É uma construção constante entre tendências, escolhas e consciência.
Talvez esteja na hora de fazermos menos perguntas sobre “quem acertou a previsão” e mais perguntas sobre quem estamos escolhendo ouvir”, — Rachel de Paola, terapeuta holística e oraculista.