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Na segunda temporada de
Vikings Valhalla, na plataforma Netflix, uma personagem ganhou o meu
coração: trata-se de Mariam, uma astrônoma, baseada em uma mulher
real, Mariam Al-Asturlabyya, que foi uma fabricante de astrolábios e
vivia em Aleppo, que hoje faz parte da Síria.
Astrolábio
era um instrumento astronômico muito popular, que graças às suas
várias funções, era apelidado de modelo portátil do universo.
Fazia cálculos, resolvia problemas de astronomia e também
funcionava como inclinômetro.
Projetar um astrolábio exigia
cálculos matemáticos muito complexos e precisos, e por essa razão,
o primeiro emir de Aleppo, impressionadíssimo com o trabalho de
Mariam, empregou-a. Em 2018, ela foi nomeada uma das mulheres mais
extraordinárias da idade de ouro islâmica, e em 1990, um asteróide
ganhou seu nome, tendo a astrônoma tido seu trabalho amplamente
reconhecido, na modernidade, bem como a sua importância para a
ciência.
Mariam,
interpretada por Hayat Kamille, conhece Leif Eriksson (Sam Corlett)
na Russia, quando ele e Harald (Leo Suter) lá chegam, em busca do
apoio do Primo, para reconquistarem Kattegat. Leif, deprimido e
consternado pela morte de sua amada, encontra amparo em Mariam, com
quem passa a ter longas conversas. Mariam começa, então a
ensinar-lhe a leitura, a escrita e os segredos do universo.
CONTÉM
SPOILER
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Leif, então, apaixona-se por ela, , mesmo sabendo que a
mesma sofre de uma doença terminal, e que morrerá em breve. O
conhecimento de Mariam abre as portas do saber para Leif, e não há
nada mais sedutor e apaixonante do que isso.
Mariam
acompanha Leif e Harald em uma viagem de barco a Constantinopla, e ao
longo do percurso, que dura meses, vai passando seus ensinamentos
para Leif, que torna-se um estudante aplicado, ávido pelas novidades
e descobertas que Mariam lhe apresenta, diariamente.
A
máxima de que o mestre aparece quando o discípulo está pronto é
comprovada aqui, e uma outra frase, que sempre uso, ‘a vocação
sempre dá um jeito de nos encontrar’, também se mostra
verdadeira. Leif a cada dia torna-se mais sábio e moderado, deixando
para trás o comportamento selvagem e impulsivo , que marca as
reações dos vikings.
O saber
Narrei
tudo isso porque sempre me deixa curiosa a forma como cada pessoa, ao
longo da vida, reage de forma diferente ao saber, ao aprofundamento
do conhecimento e à expansão da capacidade mental. O que para uns,
como Leif, se torna essencial, a ponto de estar em um barco, em mar
revolto, estudando e aprendendo, é repelido por outros.
Fato
é que ninguém sai incólume de uma imersão em conhecimento. Sempre
que uma pessoa deseja aprender, está preparada para isso, revela-se
para ela um mundo completamente novo, e novas perspectivas e caminhos
abrem-se. A capacidade de raciocínio e no manejo das habilidades faz
com que tudo se torne mais simples, menos assustador, e com isso as
possibilidades surgem, uma vez que o discípulo está pronto.
O
contato com o saber faz com que toda a capacidade de um ser humano se
amplie. O modo de enxergar as coisas se altera. Acontece um
amadurecimento natural da personalidade. O EU dá lugar ao TODO, e
essa inserção de uma pessoa, como parte do universo, muda tudo.
Quando
Mariam aproxima-se de Leif, na série, ela transforma a vida do
jovem, permitindo que ele contacte sua essência, reflita sobre suas
atitudes, encontre novas formas de agir e de pensar, aprimore sua
personalidade e module seu temperamento.
A
partir de sua chegada, a tristeza e o vazio de Leif dão lugar à
curiosidade e à excitação das descobertas, com todo um mundo de
possibilidades se abrindo à sua frente. A presença e o conhecimento
de Mariam são inspiradores , para o viking.
Em
determinado momento, Harald pergunta se ele está apaixonado por ela,
e Leif alegremente admite que sim, mesmo sabendo que ela tem pouco
tempo de vida. Mariam ansiava por dividir sua sabedoria, e vislumbra
no jovem, por quem também está apaixonada, essa oportunidade.
Leif, o homem forte, másculo, protetor, destemido e corajoso, tem
nela seu contraponto, de doçura, sabedoria, razão e sensibilidade.
Valores descartáveis
Por
essas razões, a personagem marcou-me. No mundo atual, muito mais
importante do que ser, é ter. O saber não é valorizado, exceto em
meios acadêmicos restritos. A ostentação de valores descartáveis
e transitórios é a marca da modernidade.
Entretanto,
o que perdura , na vida de uma pessoa, é a força de sua
personalidade. Essa, com certeza, é extremamente influenciada pelo
saber. À medida que avançamos em valores perenes e definitivos, com
a sabedoria, a bondade, a generosidade, o amor e a amizade, somos
mais maduros e menos autocentrados.
Mariam
lembrou-me de um mundo em que a estrutura do ser era o que importava.
Um tempo em que ganhava-se e perdia-se tudo com facilidade, morria-se
repentinamente, guerras eclodiam a cada instante. E os homens e
mulheres honrados e valorosos, estes permaneciam, no imaginário de
seu povo e como exemplo a ser seguido, resistindo aos séculos e
deixando seu nome na História.