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Erika Figueiredo - Filosofia de Vida

Olhar para dentro

Redação | Publicado em:

Divulgação

Sempre tive muita dificuldade de olhar para dentro, a fim de compreender o que eu sentia. A vida foi me exigindo coisas, me apresentando desafios desde muito nova e eu fui envolta por aquele turbilhão, sobrevivendo a cada dia, sem entender bem minhas emoções, tampouco minhas reações e meus mecanismos de fuga.

Acontece que, há cerca de cinco anos, a vida me apresentou o maior de todos os desafios, uma situação que não estava sob o meu controle e que eu não podia administrar do meu jeito. Isso foi o início de um processo, que me fez repensar todas as minhas escolhas, o meu modo de ser e agir, a minha fé e o meu futuro.

Foi um processo doloroso, de muita transformação, imersão, autoanálise, que está se encaminhando para um desfecho. Pela primeira vez, em toda a minha existência, percebi a minha profundidade e deixei cairem todas as máscaras sociais que eu utilizava.

Isso foi imensamente difícil para mim, uma pessoa que sempre manteve tudo beeeem organizado e controlado, que não chorava, não me emocionava, não pedia ajuda, não contactava muita coisa que vinha de dentro.

Transformação

Esse processo começou no final de 2019 e ainda não terminou. As decisões que tomei foram muitas. Foram transformadoras. Radicais e definitivas, em muitos casos. As perdas, inevitáveis. As rupturas também. Não é possivel mudar de verdade, sem romper com pessoas e comportamentos que impedem a evolução. A vida é assim:

Se você quer se aprofundar em algo, precisa remover o que dificulta o mergulho. Se quer evoluir como indivíduo, primeiro será necessário amadurecer. Isso significa abandonar as rotas de fuga que você já conhece, os entorpecimentos e pequenos prazeres que você utiliza como gratificação substitutiva, as decisões simplistas e confortáveis. Crescer é para os fortes e ousados.

Essência da vida

Mas essa coragem é recompensada. No meu caso, trouxe-me a proximidade com pessoas que são, hoje, essenciais para a minha vida. O resgate da fé e a reaproximação com a religião, a mudança de rota, para abraçar um novo futuro pessoal e profissional, a busca por uma nova pátria.

Poder alterar os planos, em busca das respostas que realmente te preenchem e trazem sentido para sua vida, é algo fundamental. Antes das redes sociais e das múltiplas formas de entorpecimento coletivo criadas pela modernidade, as relações eram mais verdadeiras e as trocas, mais intensas. O ser humano buscava o sentido da vida, os valores morais eram mais marcados.

Com o surgimento da relatividade no comportamento humano (tudo pode ser, nada é certo ou errado, tudo é justificável, até o crime e a perversão), as pessoas desconectaram-se completamente do que é verdadeiro, correto, bom e justo. A essência da vida ficou comprometida pelo gozo dos inúmeros prazeres, que estão a um clique na tela.

Entretanto, é possível fazer diferente. Somos perfeitamente capazes de nos conectarmos com o que realmente somos e o por quê de estarmos aqui. Precisamos, contudo, desconectarmo-nos de muitos dos apelos que orbitam ao nosso redor.

Contudo, apesar das renúncias e das tristezas que sentimos, ao longo de um processo de mergulho íntimo, emergimos disso muito melhores do que entramos. Eu não sou mais a Erika que iniciou o ano de 2019. Hoje, sou uma pessoa diferente, com outros valores e muito mais em contato com o que é importante para mim.

Posso dizer-lhes que os momentos de solidão são necessários. Eles moldam a nossa perseverança, a nossa coragem e a nossa resistência. “A solidão é uma boa conselheira”, diz o ditado popular. É no silêncio do nosso quarto que muitas respostas chegam, muitas decisões são tomadas, muitas intuições e revelações nos vêm.

Renovação

A águia vive cerca de 70 anos. Mas, para alcançar essa longevidade, aos 40 anos precisa passar por um processo de renovação, que dura 150 dias. A essa altura, suas unhas estão muito compridas, impedindo-a de agarrar as presas das quais se alimenta. O bico está curvo e as asas, velhas e pesadas demais para o vôo. Ela precisa tomar a decisão de transformar-se ou deixar-se morrer.

Ela então refugia-se no topo de uma montanha, recolhe-se em um ninho, quebra seu bico na rocha e aguarda pacientemente pelo nascimento do novo bico, com o qual arrancará as unhas, para com novas unhas, arrancar as velhas penas. Findo esse doloroso processo, a corajosa ave parte para seu vôo de renascimento, pronta para viver por mais trinta longo anos.

Eu estou prestes a fazer esse vôo. Tudo valeu à pena. Tornei-me uma pessoa muito mais calma, presente e consciente, humana e verdadeira. Não desista do seu processo! Ali na frente, está o seu verdadeiro EU, esperando por você, para desbravá-lo.

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