Cidade Maravilhosa?

Criminalidade e caos no Rio de Janeiro

Cidade vive uma intensa guerra contra as drogas

Uma das muitas paisagens da cidade
Uma das muitas paisagens da cidade |  Foto: Reprodução
  

Essa semana, palestrei com os gigantes Alexandre Abrahão e Marcelo Rocha Monteiro, sobre a crescente criminalidade no Brasil, e coube a mim falar, especificamente, a respeito do Rio de Janeiro, e as razões que fizeram com que as coisas ficassem do jeito que estão.

O Rio de Janeiro já foi a capital do Brasil, até a inauguração de Brasília. Também já foi um polo gerador de cultura e intelectualidade para todo o país. Daqui saíram grandes escritores, músicos, artistas, professores, renomados profissionais de todas as carreiras, disseminando conhecimento e sabedoria por aí.

No século 19, com a chegada da família imperial, que aqui estabeleceu-se, fazendo dessa cidade a capital do Império, o Rio viu florescer toda uma gama de intelectuais, os quais vieram de todos os cantos do país, quiçá do mundo, para aqui estabelecerem-se. Saraus, eventos culturais, teatros, concertos, balés, reuniões de grandes pensadores, tudo isso acontecia, diariamente, no Rio, até a década de 80 do século XX.

Construção de Brasília
Construção de Brasília |  Foto: Reprodução
  

A construção de Brasília tirou do Rio os ministérios e o gabinete da Presidência, fazendo com que a população carioca, pela primeira vez em muito tempo, ficasse distanciada dos órgãos de poder executivo e legislativo federais. Entretanto, bancos, empresas, a Bolsa de Valores e muitos órgãos públicos permaneceram aqui, e durante o período militar, a prosperidade econômica era notória.

O que aconteceu, então, para que chegássemos ao fundo do poço em termos de criminalidade, segurança pública, violência, caos urbano e corrupção?         

Para respondermos essa pergunta, precisamos remontar a 1970.
  

Nessa época, os assaltos a bancos e sequestros explodiram, no Rio. Os militares conseguiram, através de uma polícia bem treinada e um serviço de inteligência estruturado, prender vários dos bandidos que estavam por trás desses crimes.  Por tratarem-se de presos de alta periculosidade, foram enviados para o presídio da Ilha Grande, único de segurança máxima do Estado.

Lá, esses criminosos comuns tiveram contato, nas celas, com presos políticos, que desde o início eram enviados para a Ilha Grande. Com os terroristas, aprenderam táticas de guerrilha, de sequestro, aperfeiçoaram as técnicas de assalto a bancos e começaram a ler Karl Marx e entender um pouco sobre o comunismo. Ali fundaram o COMANDO VERMELHO, então Falange Vermelha, capitaneado por Rogerio Lemgruber e por William Professor.

Rogério Lemgruber foi um traficante de drogas brasileiro, criador da facção Falange Vermelha, antecessora do Comando Vermelho Rogério Lemgruber
Rogério Lemgruber foi um traficante de drogas brasileiro, criador da facção Falange Vermelha, antecessora do Comando Vermelho Rogério Lemgruber |  Foto: Reprodução
  

Esses criminosos começaram a colocar as novas estratégias em prática, dentro e fora do presídio, sobretudo para a execução de sequestros, assaltos a bancos e o tráfico de drogas. Nas comunidades, fortaleceram-se e começaram a montar esconderijos, similares aos “aparelhos” que os terroristas utilizavam.

Facção colombiana
Facção colombiana |  Foto: Reprodução
  

O CV aproximou-se das FARCs, e percebeu que lucrativo, mesmo, era o tráfico de cocaína, que vinha crescendo muito nos EUA e na Europa, e que dava muito dinheiro, sem tanto risco e derramamento de sangue. Antes, o tráfico de drogas era modestamente administrado por banqueiros de jogo do bicho, que foram rapidamente substituídos pelos integrantes do CV, que logo se ramificou para terceiro comando, ADA, e outras facções

A topografia do Rio de Janeiro propiciava o exercício dessa atividade, pois, como há muitos morros contíguos ao asfalto, por toda a cidade, desde a zona norte até a zona sul, os chefes do tráfico poderiam estabelecer-se em casas com esconderijos e túneis no alto das favelas, e de lá coordenarem a venda de entorpecentes, que seriam facilmente comercializados, também, no asfalto.

Com suas táticas de guerrilha e seus esconderijos, eles tinham a polícia , entretanto, como obstáculo. Até que uma eleição deu-lhes o que precisavam: LEONEL BRIZOLA como governador do Estado. Político gaúcho populista, socialista e nada comprometido com o combate à violência, Brizola tinha uma situação peculiar em casa: sua filha, Neuzinha, gostava muitos de frequentar as favelas, ir a bailes, ficar dias e dias por lá e diz-se que gostava de namorar traficantes e usar drogas.

Brizola foi um líder político do último século no Brasil
Brizola foi um líder político do último século no Brasil |  Foto: Reprodução
  

O discurso de Brizola, desde a época de campanha, era de que a polícia só subia morro por preconceito ao preto, pobre e favelado. Prometia que, em seu governo, policial não entraria em favela. E uma vez eleito, cumpriu a promessa. Ele abandonou todo e qualquer incentivo à polícia, não renovando a frota, os armamentos, nem investindo em treinamento tático. Proibiu as operações policiais em favelas. Desprestigiou e jogou para escanteio o recém criado BOPE, grupo estratégico da polícia carioca, especializado em combate ao crime organizado e violento.

Criou, ainda, uma estrutura de fornecimento de água, luz e esgoto para as favelas, transformando-as em verdadeiros bairros ( Orientado por Darcy Ribeiro). Esses novos bairros entretanto, vivam totalmente na ilegalidade, com ocupações irregulares, livre comércio de drogas, onde a autoridade máxima eram os traficantes, e a população vivia sob o jugo de suas regras e determinações.

Tudo que os traficantes de drogas desejavam era um governador assim. A cocaína livremente comercializada nos morros cariocas e no asfalto passou a ser, inclusive, carinhosamente chamada de BRIZOLA.

 Em paralelo a isso, um grupo de comerciantes de Rio das Pedras, cansados da criminalidade e dos sucessivos assaltos a seus comércios, contratou policiais para fazerem a segurança privada do bairro, surgindo, aí, o embrião das milícias, que hoje associaram-se aos traficantes,  cobrando por serviços como fornecimento de  gás, luz, água, tv a cabo, segurança e, até mesmo, um percentual sobre os aluguéis, nas comunidades carentes.

Esse quadro de coisas, a impunidade baseada no sucateamento da polícia, que passou a ter dificuldade de investigar e de prender, o tráfico dominando a cena e corrompendo autoridades. Tudo isso nos levou ao caos.    Hoje, o Rio é conhecido como a capital brasileira que já teve 5 governadores investigados e presos por corrupção. Está mergulhado numa verdadeira guerra civil, na qual a população tem medo de sair às ruas, de ser assaltada mas, sobretudo, morta ou violentada. A vida aqui não vale nada.

Por todo o Brasil, vemos muita violência. Mas o cenário carioca, no qual todas as comunidades estão dominadas pelo poder paralelo do tráfico ou das milícias, e que possui uma proximidade extrema entre morro e asfalto, traz uma insegurança e uma vulnerabilidade muito grandes a seus habitantes.

Em algumas cidades do mundo, com problemas similares aos do Rio,  uma política de austeridade pública, fortalecimento das polícias e combate efetivo ao tráfico, fez com que o crime retrocedesse. Mas aqui, muitos lucram com esse caos urbano, e há um envolvimento muito grande entre políticos e traficantes, empresários e políticos, milicianos e políticos, numa ciranda sem fim.    

Mudar o quadro de corrupção e criminalidade leva tempo. Ocupar espaços não é fácil, em meio ao loteamento de postos, cargos, funções. O carioca acostumou-se a evitar certos locais, viver com medo, atrás de grades. Tem uma cidade linda, da qual não pode usufruir. 

O Brasil é uma rota chave para o tráfico de drogas internacional, e também para o de cigarros, armas, etc... Enquanto não conseguirmos diminuir o escoamento de dinheiro por meio de corrupção, prendendo efetivamente os criminosos e aqueles que negociam com estes, e que são igualmente criminosos, punindo-os severamente, por meio de um Judiciário sério e isento, não frearemos a escalada da violência.

A teoria das janelas quebradas, que inspirou Rudolph Giuliani em NY, quando a cidade estava submersa no crime e na violência, totalmente degradada e abandonada, tem muito a nos ensinar. Puna severamente até mesmo o pequeno delito, para que isso sirva de exemplo àqueles que pensam em praticar crimes.

As leis, ali, foram usadas em prol da sociedade, deixando um exemplo do que pode funcionar, para nós. Ocorre que, desde a mesma década de oitenta, políticos, juristas e legisladores brasileiros só fazem ter pena dos bandidos, considerando-os vítimas da sociedade, sem outra alternativa que não seja delinquir.

Enquanto essa visão romantizada do criminoso, e que tanto captura o carioca, não for aniquilada, a criminalidade não deixará de avançar e fazer cada vez mais vítimas. Que Deus tenha piedade de nós, e que possamos, um dia, voltar a ter uma Cidade Maravilhosa. 

Erika Figueiredo - Direito e Muito Mais

Erika Figueiredo - Direito e Muito Mais

A niteroiense Erika da Rocha Figueiredo é escritora, promotora de justiça criminal, mestre em ciências penais e criminologia e membro da Escola de Altos Estudos em Ciências Criminais e do MP Pro Sociedade.

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