Erika Figueiredo - Direito e Muito Mais

É preciso saber envelhecer

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As pessoas não querem envelhecer, adotam comportamentos de adolescência até a terceira idade, afastam a sabedoria, em prol de uma imagem de juventude eterna e de uma vitalidade sem fim. Foto: Pedro Conforte

No dia, 28/12, completei 50 anos, que me impõe uma reflexão... O tempo tem sido generoso comigo, e esse ano foi muito produtivo e frutífero, em muitos aspectos. Mas é necessário compreender as fases da nossa existência, assim como as estações do ano e os ciclos da natureza.

Assisti à estreia da nova série, estrelada pelas protagonistas de Sex and The City. Fui uma entusiasta, não perdia um episódio, e o início dos anos 2000, época difícil para mim, com filho pequeno, muito trabalho, sem marido e com pouca grana, foi marcado pelas golden girls da série, que inundavam minha tela de televisão, falando de amor e sexo, fazendo-me desejar, ardentemente, fugir da minha rotina e  morar em Nova York.

Acontece que eu envelheci. Elas também. Eu amadureci. Elas não. E isso foi uma constatação que fiz, ao assistir ao primeiro episódio de And Just Like That. Carrie, Miranda e Charlotte sentem-se inadequadas com sua idade, seu rosto, seu cabelo e suas escolhas. Fazem um monte de bobagens e não sabem seu lugar.

Carrie quer participar de um podcast numa rádio, com pessoas sem definição de gênero, que só querem falar de masturbação, em vagões de metrô. Miranda entra em um mestrado em direitos humanos, no qual só há jovens, a professora é negra, e ela comete muitas gafes na primeira aula, pois não sabe como se portar.

Charlotte tornou-se uma caricatura, uma mulher rica cheia de botox, plástica e preenchimento, que ocupa seu tempo com compras e ostentação, e tenta moldar as filhas à sua imagem e semelhança. Quantos equívocos, em um só episódio.

O segredo de envelhecer é compreender que a vida é feita de etapas, não sendo possível enquadrar-se no que não reflete o nosso eu. Isso era algo bastante óbvio, para gerações anteriores, para as quais, o amadurecimento da personalidade, trazia o afastamento de uma série de comportamentos, e a adoção de outros.

Hoje, entretanto, está tudo muito pulverizado. As pessoas não querem envelhecer, adotam comportamentos de adolescência até a terceira idade, afastam a sabedoria, em prol de uma imagem de juventude eterna e de uma vitalidade sem fim. Isso tem um preço. E esse preço estava ali, exibido no primeiro episódio da série. Pessoas que tornaram-se caricaturas de si mesmas, e não encontram seu lugar no mundo.

Ao final do primeiro episódio, o marido de Carrie, John (vulgo Mr Big) é encontrado morto, por esta, no banheiro de casa, após um ataque cardíaco. Pode ser que a constatação da finitude da vida modifique os rumos da série, que, até o momento, não cabe na vida da pessoa que eu me tornei.

Portanto, o que eu desejo, nesse marco que é completar 50 anos de idade, é tornar-me mais sábia, aceitar as minhas limitações e comemorar os meus ganhos, entender que o tempo passa para todos nós, e que o que importa é o que fizemos e o legado que deixamos, no meio desse caminho.

Claro que quero manter-me com uma imagem harmoniosa, bem apresentada, de uma mulher madura que sabe se cuidar. Mas não quero ser a sombra do que fui, ou um reflexo borrado dos meus 20 anos de idade. O tempo passou para mim, não preciso negar isso.

Em 2021, eu publiquei um livro, encontrei pessoas maravilhosas, mudei de casa, abandonei velhas amizades, escrevi muito, estudei bastante, criei um instagram de filosofia, realizei sonhos e refiz minha trajetória em diversos aspectos. Chorei, sorri, evoluí.

Ontem, assistindo ao show de Roberto Carlos, debulhei-me em lágrimas. Uma das músicas do show, “É Preciso Saber Viver”, fala exatamente disso:

“Quem espera que a vida seja feita de ilusão,

pode até ficar maluco, ou morrer na solidão.

É preciso ter cuidado, pra mais tarde não sofrer

É preciso saber viver”.

Quem não aprende com os ciclos da vida, como os homens que vivem em contato com a natureza, sabiamente o fazem, corre o risco de tornar-se um outsider, alguém dissociado da realidade, pois não aceita a passagem do tempo. É o que mais vemos por aí.

Que saibamos envelhecer com sabedoria, equilíbrio e paz, compreendendo que a morte chega pra todos, e que o que realmente importa, é quem você vai ser, quando chegar a sua hora de partir.

Feliz Ano Novo, repleto de esperança, paz e amor! Que Deus nos abençoe abundantemente!

Erika Figueiredo - Direito e Muito Mais

Erika Figueiredo - Direito e Muito Mais

A niteroiense Erika da Rocha Figueiredo é escritora, promotora de justiça criminal, mestre em ciências penais e criminologia e membro da Escola de Altos Estudos em Ciências Criminais e do MP Pro Sociedade.

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