Entre um chamado e outro, ela acelera pelas ruas de Niterói e São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, com uma missão que vai além de chegar ao destino: arrancar um sorriso de quem sobe na garupa. Aos 31 anos, a motociclista por aplicativo Michelle Santos, conhecida nas redes sociais como ‘Rajadeira das Entregas’, transformou a rotina de ‘motogirl’ em uma mistura de trabalho, criatividade e carinho com os passageiros.
A personagem começou a ganhar forma antes mesmo das fantasias. Moradora do Tenente Jardim, em Niterói, Michelle passou a usar tranças no capacete durante as entregas. O apelido veio das muitas corridas que fazia.
“A Rajadeira começou com tranças no capacete, não foi nem fantasia. A Rajadeira porque eu fazia muitas entregas e o pessoal falava: ‘Caraca, está Rajadeira'”, conta.
Estilo que pega carona
A ideia de gravar a rotina para as redes sociais surgiu há algum tempo, mas a timidez fez Michelle adiar os planos. As roupas personalizadas também já estavam nos pensamentos dela, mas comentários de outras pessoas a fizeram recuar.
“Sobre as roupas personalizadas, eu tinha essa ideia há muito tempo, mas as pessoas falavam: ‘Mulher velha dessa vai botar isso e passar vergonha’. Aí eu: ‘Ah, deixa pra lá e vou ficar só com as tranças no meu cabelo, fazendo entregas’”, lembra.
O incentivo veio depois que Michelle ganhou um concurso em uma plataforma de aplicativo e conheceu o trabalho de um entregador de outro estado que também apostava em uma apresentação personalizada. Ela contou a ele que já tinha uma capa do Stitch guardada e que pensava em colocar a ideia em prática.
“Eu falei: ‘Cara, eu tenho essa ideia na minha cabeça, já tenho a capa do Stitch guardada’, mas, com as pessoas falando, eu fiquei com muita vergonha, e ele me incentivou e eu fiz”.
Hoje, os capacetes personalizados, com personagens como Stitch e Unicórnio, além das tranças e dos looks usados durante o expediente, chamam atenção por onde ela passa. Mas é durante as corridas que Michelle costuma surpreender.
Bombom e sorrisos
Em uma das brincadeiras que criou para as redes sociais, ela cumprimenta o passageiro com um toque na mão e, logo depois, entrega um bombom. O gesto simples costuma render sorrisos e reações espontâneas, e os vídeos já acumulam milhares de visualizações.
“O pessoal, quando recebe o bombom, gosta, fala que é legal, a gente vai mais leve. Isso faz a diferença”, afirma.
Entre tantas reações, uma em especial ficou marcada. Durante uma corrida, uma menina viu Michelle caracterizada, se aproximou e ficou olhando para o capacete. Michelle perguntou se ela queria brincar. A criança colocou as mãos no capacete e sorriu.
“Foi a melhor reação desde que eu comecei com as viagens personalizadas. Até comprei um capacete pra ela”, revela.
Entre a pista e os cuidados de mãe
Por trás da personagem divertida das ruas, porém, existe uma rotina de muita responsabilidade. Michelle é mãe de quatro filhos: uma adolescente de 13 anos, que mora com o pai; um rapaz de 16 anos, que mora com ela; e as gêmeas de 10 anos, que também vivem com a mãe. As meninas são diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Antes de começar a trabalhar com corridas e entregas, Michelle tinha um emprego com carteira assinada. A mudança aconteceu depois que uma das filhas, Alice, teve um edema cerebral e sofreu uma convulsão dentro de casa.
“Eu tive que sair correndo, cheguei lá e a minha filha deu crise de ausência também, não respondia a nada. Eu nunca mais fui a mesma no trabalho”, relata.
A filha precisou fazer com urgência uma coleta de líquor, exame que, segundo Michelle, não estava disponível naquele momento onde morava. Sem recursos para arcar com o procedimento, ela pediu dinheiro emprestado e fez uma vaquinha para conseguir pagar os custos.
“Eu pedi dinheiro emprestado, fiz vaquinha, aí apertou as coisas em casa. Eu falei: ‘Poxa, sei pilotar, tenho habilitação, eu vou fazer entrega’”, relembra.
Flexibilidade para estar presente
A possibilidade de trabalhar por aplicativo surgiu como uma maneira de conciliar a renda com os cuidados dos filhos. Com horários mais flexíveis, Michelle passou a organizar as corridas de acordo com a rotina escolar das meninas e os períodos em que poderia contar com o pai delas.
“Dá pra me adequar no tempo que está no colégio, no tempo que o pai pode cuidar e, assim, eu vou trazendo fruto pra minha casa”, explica.
A decisão foi tomada no impulso, em um momento de pressão, mas acabou mudando a rotina da família.
“Foi no impulso, no momento de calor, mas foi a melhor decisão que eu fiz, porque tenho mais momentos com meus filhos, mais momentos em casa, a flexibilidade é melhor”, diz.
Michelle reconhece que o trabalho nas ruas também tem dias difíceis. Nem sempre há chamadas suficientes e a renda pode variar, mas, para ela, a possibilidade de ter autonomia diante de uma emergência com os filhos pesa na escolha.
“Tem dias que é ruim, o aplicativo não toca direito, mas você não faz menos do que um dia de CLT. Seu filho passou mal, pode ir com a cabeça tranquila, no outro dia vai recompensar aquele dia”, afirma.
Cuidado que vai na garupa
A preocupação com a segurança também faz parte da rotina. Antes de sair de casa, Michelle costuma ouvir dos filhos um pedido que se tornou habitual.
“Toda vez que eu saio de casa, elas falam: ‘Mãe, vai com Deus, cuidado na pista’”, diz orgulhosa.
Na rua, diz ela, cada corrida também traz algum aprendizado. Para Michelle, pilotar exige atenção não apenas com o próprio comportamento, mas também com todos que dividem o trânsito.
“A rua ensina muita coisa. Você tem que pilotar por você e pelas pessoas. A gente já leva uma culpa que não quer, que motoboy sempre está errado. Mas é isso: você ter cuidado na pista com você e quem está ali”.
Entre entregas, corridas e vídeos, Michelle encontrou uma maneira de transformar a própria rotina em uma experiência que vai além do deslocamento. Para ela, o retorno dos passageiros é parte do que faz o trabalho valer a pena.
“Eu vou ‘felizona’ pra casa, lembrando de cada passageiro que eu carreguei e falou: ‘Que lindo, que legal’. É tão satisfatório a pessoa dizer que melhorou o meu dia. É muito show”, finaliza.