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Caso Bruninho: o ódio contra uma criança detona a falência moral além do futebol

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Bruninho foi o centro das atenções na última semana e precisa nos fazer refletir. Foto: Reprodução

No Brasil, nascemos aprendendo a amar o futebol. Os clubes, as cores, as tradições, os ídolos, as rivalidades e os títulos. Toda a atmosfera mágica dos primeiros passos dentro de um estádio. Toda a mística de escolher um emblema e, desde então, pertencer a ele pelo resto da vida. Se há uma palavra que defina toda esta experiência, ela certamente é o amor.

Mas não nos ensinam, ainda enquanto pequenos, sobre o lado obscuro do esporte. As brigas, os marginais, os esquemas, os crimes e, por fim, o ódio. Sentimento este não é oriundo da modalidade - mas nela foi inserido pelas mentes perversas que sempre existiram, desde antes da invenção do próprio futebol. Num cenário mais polarizado do que nunca, o Brasil é, infelizmente, um grande barril de pólvora a cada esquina à espera de uma simples fagulha.

A partir daí, chegamos no 'Caso Bruninho'. Uma criança de nove anos, ainda dando seus primeiros passos rumo à paixão eterna pelo mundo da bola, ainda escolhendo suas referências - embora já apaixonado pelo Santos. Mas, um de seus primeiros ídolos, o goleiro Jaílson, é integrante do elenco do rival, o Palmeiras. Algo natural dentro do quase infinito universo da bola. Mas, por outro lado, praticamente um crime para os raivosos que vêm invadindo nossas arquibancadas.

Um crime a ponto de se tornar justificável - na cabeça podre e doente deles - ao agredir um menino, até arrancar de suas mãos, poucos segundos depois, uma camisa oficial dada como presente. Tiraram dele, além do momento mágico da interação com seu craque do coração, a inocência da sensação de que o estádio é um lugar democrático. Porque deveria ser. Bruninho descobriu muito cedo que a falência moral brasileira já invadiu também nossas arenas.

E o que doeu em Bruninho também doeu em mim. Doeu porque me fez lembrar das injustiças que presenciei nas arquibancadas da vida e, de repente, ainda não tinha malícia para perceber. Em algum lugar perdido aqui dentro, o Pedro de nove anos chorou as lágrimas daquele pequeno - porém gigante - santista. Vê-lo, dias depois, pedindo desculpas (!!!) por ser fã de um jogador rival, me partiu o coração. Não era para ser assim, e aqueles covardes escrotos sairão impunes - como sempre.

Corrente de amor

O curativo nas minhas feridas recém-reabertas foi a onda de amor recebida por Bruninho de todas as partes. Jogadores e clubes de todo o Brasil demonstraram solidariedade e apoio ao menino. De Neymar a Pelé, o pequeno Bruninho foi bombardeado com mensagens, presentes e convites - como o do próprio Santos para assistir à partida contra o Red Bull Bragantino na última quarta (10). O Santos venceu. Bruninho saiu feliz e eu também.

Pelé, o maior da história do Brasil e do Santos, contou que também tinha um jogador do Palmeiras - o atacante Vavá - como ídolo. Eu, botafoguense de coração, nunca escondi minha admiração por São Marcos, goleiro do Verdão, e Romário, que jogou nos três rivais do meu clube. Ídolos transcendem camisas. Futebol não é ciência exata - graças a Deus.

Bruninho também foi convidado para o jogo da Seleção Brasileira. Aos nove anos, viu o Brasil vencer a Colômbia com passe de Neymar e gol de Lucas Paquetá, garantindo vaga na Copa do Mundo do Catar em 2022.

O real sentido do esporte

"Eu me senti muito assustado e também com medo de morrer. Eu fiquei com muito medo naquela hora. Espero que não se repita mais com a nossa torcida"

Bruninho

O futebol, assim como em qualquer outro esporte, nasceu para agregar. Nós, apaixonados pelo mundo da bola, carregamos o fardo de lutar para que estádios sejam sempre lugares inclusivos e democráticos. Infelizmente ainda estamos longe disso, mas a evolução é cristalina nos últimos anos. A briga contra gritos homofóbicos e machistas, ambos transformados em possíveis punições para os clubes, era uma constante até os anos 2000 - mas, hoje, diminuíram bastante.

Estádio não é local para sentir medo. Não é local para brigas. Não é local para preconceitos. Não é local para ódio. Estádios são refúgios - onde vamos para nos divertir, confraternizar e distrair. Que a tristeza, das catracas para dentro, apareça apenas na hora do gol adversário, da perda de um título ou nos sofridos rebaixamentos. Estas lágrimas, sim, fazem parte do esporte - mas são curadas logo depois.

Que o 'Caso Bruninho' seja o estopim para estes idiotas neandertais que querem polarizar tudo e trazer o ódio para dentro do nosso esporte preferido. Que os vândalos que o agrediram sejam identificados e banidos dos estádios. Que santistas e palmeirenses, corinthianos e são paulinos, botafoguenses e flamenguistas, colorados e gremistas e todos os outros rivais do Brasil possam conviver em harmonia - torcendo por suas cores, mas respeitando as do outro.

Segundo Bruninho, um homem o abordou através das mensagens do Instagram e o ameaçou dizendo "quero ver você pisar na Vila, você não é digno, você é um babaca". Para uma criança de nove anos. Um pequeno torcedor que compartilha com ele o sentimento puro que é o amor pelo clube do coração. O quão abominável isto pode ser? Não existem palavras que expliquem. Uma pessoa dessas não pode, jamais, continuar vivendo em sociedade.

As pessoas estão, mais do que nunca, intolerantes às opiniões das outras. Nosso esporte bretão não pode ser influenciado - ou melhor, contaminado, pela briga política extremista que dominou o Brasil. Ensinemos nossas crianças a serem diferentes de nós. Que mais Bruninhos surjam, nos estádios e fora deles, carregando o amor, a diversidade, o respeito e a tolerância ao diferente. Que revivamos o Bruninho que há dentro de cada um de nós.

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