Coluna

Do ataque russo à guerra irracional de torcedores no Rio

Aqui ou no leste europeu, estamos longe do ideal

Cadeiras do Estádio Nilton Santos são constantemente quebradas pelas torcidas rivais.
Cadeiras do Estádio Nilton Santos são constantemente quebradas pelas torcidas rivais. |  Foto: Reprodução/Redes Sociais
 

Minha maior paixão é falar sobre futebol. Ser repórter esportivo é um prazer, mas ser colunista de esporte é uma honra. Mas hoje, infelizmente, não posso falar de esporte. Não posso porque as dores do mundo falam mais alto — ou melhor, elas gritam. Gritam por socorro, por misericórdia ou mesmo pelo desespero por ver que está tudo errado.

O ataque russo à Ucrânia foge da minha editoria. No entanto, foi no olhar de desespero dos atletas brasileiros presos no país que me dei conta do tamanho do problema. Não era medo das consequências, de perder o emprego, de parar o futebol. Era medo de perder a vida. Medo de ficar exposto a uma guerra junto com seus entes queridos.

Não é de hoje que o mundo está doente, é verdade. Mas às vezes me pergunto, onde vamos parar com tanto ódio, tanto sangue, tanto caos? E nem precisamos ir à Europa para vê-los; basta olhar aqui mesmo, no Rio de Janeiro. As guerras intermináveis entre torcidas organizadas e, agora, a nova moda: a depredação do estádio alheio.

Com o fechamento do Maracanã para a troca do gramado, o já esvaziado Campeonato Carioca ficou também sem sua principal arquibancada. E, diante disso, Botafogo e Vasco optaram por alugar suas casas aos rivais Flamengo e Fluminense. O que eu não conseguiria jamais imaginar é que nem isso daria certo no Brasil - pois não há mais respeito.

'Torcedores' quebrando cadeiras, depredando pias e privadas, arrancando torneiras e até mesmo removendo as sinalizações internas da bancada. Não bastasse o vandalismo, há ainda o deboche: tiram fotos com os itens destruídos para postar na internet, cientes da impunidade que já é marca registrada do nosso país.

Será que estamos tão longe dos russos assim? Se não conseguimos sequer conviver em sociedade perante as diferenças nas cores de nossas camisas, o que mais falta para sermos considerados desatinados como os que jogam mísseis e (também) matam inocentes? 

Recentemente, em mais uma tentativa de acompanhar um clássico in loco, me vi em meio a uma briga. No meio da rua, sem cerimônia, entre idosos e crianças. No olhar de uma menina, reconheci uma expressão familiar; era a de Diego Carioca, atacante niteroiense preso em solo ucraniano. O mesmo medo, o mesmo desespero. Qual a diferença?

O que dói mais é a sensação de impotência. De ver o planeta de cabeça para baixo e saber que, sozinho, nada posso fazer. Estamos caminhando rumo ao precipício, lado a lado, sendo carregados pelo rio de ódio que dominou o mundo. Não falta muito para alguém apertar aquele botão vermelho que encerra tudo. O problema é que não será possível recomeçar.

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