Há mais de um mês, o Supremo Tribunal Federal (STF) tenta intimar o deputado federal Mário Frias para que ele apresente esclarecimentos sobre a destinação de emendas parlamentares a entidades associadas à produtora responsável pelo filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. A cobrança foi determinada pelo ministro Flávio Dino no âmbito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 854.
A decisão foi tomada após representação apresentada pela deputada federal Tabata Amaral, que aponta supostas irregularidades na destinação de recursos públicos para organizações ligadas à empresária Karina Ferreira da Gama. Segundo a parlamentar, Frias teria destinado ao menos R$ 2 milhões à Academia Nacional de Cultura (ANC), presidida por Karina.
Além da ANC, Karina também dirige o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a produtora Go Up Entertainment, responsável pela produção de “Dark Horse”, previsto para estrear nos cinemas em setembro, às vésperas do primeiro turno das eleições.
De acordo com os autos do processo, oficiais de Justiça estiveram no gabinete de Frias, na Câmara dos Deputados, em Brasília, em pelo menos três ocasiões entre março e abril. Assessores do parlamentar informaram que ele estava em São Paulo cumprindo agendas políticas e não apresentaram informações sobre sua localização.
Emendas
A representação de Tabata Amaral foi motivada por reportagem publicada pelo site The Intercept Brasil, em dezembro de 2025. A publicação afirma que a Academia Nacional de Cultura recebeu R$ 2,6 milhões em emendas parlamentares indicadas por deputados do Partido Liberal (PL), legenda de Bolsonaro. Além de Frias, aparecem entre os autores das indicações os deputados federais Bia Kicis e Marcos Pollon.
Na petição enviada ao STF, Tabata sustenta que diferentes empresas e entidades ligadas a Karina Ferreira da Gama atuariam de forma integrada, o que poderia dificultar o rastreamento da aplicação dos recursos públicos. A parlamentar também argumenta que as verbas poderiam estar financiando produções audiovisuais de caráter ideológico.
Bia Kicis e Marcos Pollon responderam à intimação do STF dentro do prazo estabelecido por Flávio Dino. Pollon afirmou ter destinado R$ 1 milhão para a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo com o objetivo de viabilizar, por meio da Go Up Entertainment, a série documental “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rendem”.
Segundo o deputado, o projeto não avançou porque a entidade beneficiada não teria conseguido cumprir exigências técnicas. Ele afirmou que os recursos acabaram redirecionados para a área da saúde, em favor do Hospital de Amor, em Barretos, no interior paulista.
“A inexistência de execução afasta, por completo, qualquer hipótese de desvio de finalidade ou irregularidade material na aplicação de recursos públicos”, declarou Pollon nos autos.
Decisão política
Bia Kicis também confirmou ter destinado R$ 150 mil para a produção da série documental mencionada por Pollon. A deputada afirmou, porém, que a indicação não chegou a ser executada.
Na manifestação encaminhada ao STF, Kicis classificou como “maldosa” a representação apresentada por Tabata Amaral. A parlamentar afirmou que não há relação entre sua emenda parlamentar e o filme “Dark Horse”.
Segundo ela, a associação entre diferentes projetos por envolverem a mesma produtora e pautas conservadoras seria um “erro metodológico e jurídico grave”. A deputada também negou ter contribuído, com dinheiro público, para financiar um filme sobre Bolsonaro.
Kicis afirmou ainda que sua indicação orçamentária buscava estimular o setor audiovisual e a economia criativa, além de promover projetos ligados à história nacional.
Após ser acionada por Flávio Dino, a Advocacia da Câmara dos Deputados informou ao STF que não identificou irregularidades processuais nas duas emendas parlamentares de Mário Frias citadas por Tabata Amaral.
Master
Nesta quarta-feira (13), nova reportagem do The Intercept Brasil revelou mensagens envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Segundo a publicação, o senador teria solicitado cerca de R$ 134 milhões para financiar “Dark Horse”, dos quais ao menos R$ 61 milhões teriam sido liberados.
Os diálogos teriam ocorrido antes da prisão de Vorcaro na Operação Compliance Zero, deflagrada em novembro de 2025 para investigar supostos crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e fraudes em negociações envolvendo o Banco Master e o BRB.
Em um dos áudios divulgados, Flávio Bolsonaro menciona dificuldades financeiras enfrentadas pela produção do filme e cobra o envio de recursos para quitar parcelas atrasadas.
“É porque está em um momento muito decisivo aqui do filme e, como tem muita parcela para trás, cara, está todo mundo tenso”, afirma o senador em trecho reproduzido pela reportagem.
Superprodução
Roteirista e produtor executivo de “Dark Horse”, Mário Frias negou que Flávio Bolsonaro tenha participação societária na produção ou na Go Up Entertainment. O deputado também afirmou que o longa não recebeu recursos do Banco Master ou de Daniel Vorcaro.
Segundo Frias, ainda que houvesse investimento privado por parte do banco, isso não representaria irregularidade, por se tratar de uma relação entre agentes privados sem uso de verba pública.
Ex-secretário especial da Cultura durante o governo Bolsonaro, Frias afirmou que “Dark Horse” será uma “superprodução em padrão hollywoodiano”, financiada integralmente com capital privado.
O deputado também comparou os custos da obra aos do filme Ainda Estou Aqui, que teve orçamento estimado em R$ 45 milhões. Segundo ele, o projeto contará com “ator de primeira linha”, além de diretor e roteirista de projeção internacional.
Com informações da Agência Brasil