Descaso

Alunos ficam sem aulas por falta de mediadores em escolas estaduais

Caso acontece em unidades de Niterói, segundo as mães

Segundo denúncias, algumas crianças ainda não tiveram aulas neste ano
Segundo denúncias, algumas crianças ainda não tiveram aulas neste ano |  Foto: Arquivo / Rovena Rosa / Agência Brasil

Mães de alunos de escolas estaduais de Niterói denunciam que, até esta terça-feira (9), o Estado não disponibilizou professores, mediadores ou cuidadores para crianças com necessidades especiais em determinadas unidades de ensino. Com isso, o ano letivo de muitas crianças não começaram, prejudicando a formação destes alunos.

De acordo com Letíca Brito, mãe de Samuel Isac, de 17 anos, do 1º ano do ensino médio do Colégio Estadual Brigadeiro Castrioto, no bairro São Lourenço, em Niterói, seu filho está triste por não ter ido a escola este ano.

"Meu filho não teve um dia de aula em 2024, pois não tem professores, mediadores ou cuidadores. Metade do ano já se foi e o Isac está em casa. Ele quer muito ir a escola aprender, estudar, se formar. Ele está muito triste com tudo isso. É inaceitável", desabafou.

Por conta disso, o ano letivo de Samuel Isac, portador do Transtorno do Espectro Autista (TEA), foi severamente prejudicado.

Ainda de acordo com Letícia, a escola já fez um pedido para a Secretaria de Estado de Educação do Estado do Rio (Seeduc), mas até hoje o problema não foi solucionado.

Meu filho fica olhando a escola querendo ir estudar. Isso é uma tortura! Ele se sente excluído, frustrado e incapaz. Eu só quero que meu filho termine o ensino médio como qualquer outro aluno. Mas sinceramente, estou perdendo a esperanças Letícia Brito, mãe de autista

Receios

A pedagoga Isabele Simão, de 52 anos e mãe de um adolescente autista, que estuda no Colégio Estadual Manoel de Abreu, em Icaraí, passa por um momento um pouco parecido.

Apesar de seu filho estar tendo aula normalmente, a unidade de ensino sofre com a falta de mediadores e cuidadores para dar suporte às crianças com necessidades especiais.

"Conheço outras mães que estão sofrendo com o mesmo problema. Em algumas unidades, por não ter professores, mediadores ou cuidadores para alunos com deficiência, acabam atrasando a formação dessas crianças. Muitas dessas não conseguem se alfabetizar na idade correta. É muito difícil conseguir apoio. Nossos filhos às vezes sofrem bullying, então eles precisam desse apoio", detalhou.

Com a escassez de mediadores e por não ter o cuidado especial, muitas mães ficam com receio de inscrever seus filhos nas escolas. Com isso, o número de evazão, principalmente no ensino médio, é muito grande.

Para tentar evitar problemas como esses, as mães se reuniram e fizeram um grupo nas redes sociais para se ajudar, e denunciar o caso juntamente.

São poucas as crianças que encaram o ensino médio com todos os medos e receios que enfrentam. A nossa realidade é um pouco diferente e isso é inegociável. A gente fica sem saúde mental. É uma falta de respeito Isabele Simão, mãe e pedagoga

Apesar do grupo de mães estar amparado com diversas leis, a responsável Isabele afirmou que o problema é recorrente e ainda está longe de ser solucionado.

"A gente está amparado pelas leis, existem constituições federais, tem a Lei Brasileira de Inclusão... São direitos, e não favores! A gente fica com o coração apertado. Dói demais ver nossos filhos nessas condições sem saber o que vai ser daqui para frente", disse Isabele.

Outro problema que Isabele teme é pelo futuro do seu filho e de outros. Ainda de acordo com a pedagoga, o direito de ensino básico está sendo negado pelo Estado.

É uma vergonha o que está o Estado. Os direitos de ensino básico estão sendo negados para os nossos filhos. Isso atrapalha no crescimento, desenvolvimento e até mesmo no mercado de trabalho. Lá na frente meu filho vai querer um emprego e não vai conseguir, porque ele não vai ter nem educação básica. A gente não tem todo o suporte necessário, uma rede de apoio. Eu tenho medo de deixar meu filho sozinho na escola, dele sofre bullying, de não ser bem tratado. É angustiante demais Isabele Simão, mãe de autista

O que diz a Seeduc?

Procurada, a Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) afirmou, em nota, que "os alunos com necessidades especiais recebem o atendimento de cuidadores e intérprete de Libras. Além destes profissionais, a secretaria vai ofertar, a partir do segundo semestre, o Professor Articulador Pedagógico da Educação Especial, com a função de mediar e auxiliar no processo de ensino-aprendizagem desses estudantes".

Por fim, a pasta reforçou que "o profissional de apoio cuidador realiza o atendimento de maneira individual ao estudante e o Professor Articulador Pedagógico da Educação Especial vai atuar na necessidade educacional específica do aluno".

< Tiroteio termina com um morto em comunidade de Niterói <