Especial Eleições 2026
Para quem vive no Leste Fluminense, chegar ao Rio de Janeiro não é apenas uma questão de distância. É preciso enfrentar horas no trânsito, ônibus lotados, longas esperas por uma barca, estradas com buracos e iluminação precária. Em Niterói, São Gonçalo, Maricá e Itaboraí, deslocar-se diariamente até a capital se tornou um desafio que mistura infraestrutura, preço e tempo, problemas que estarão entre os principais desafios do próximo governador do Rio.
A rotina de quem precisa atravessar os municípios da região revela uma rede de transporte pressionada pela demanda e subestimada pelo poder público. A rodovia RJ-104, que atravessa Niterói e São Gonçalo até Itaboraí, recebe diariamente cerca de 30 mil veículos. Já a RJ-106, principal ligação entre São Gonçalo e Maricá, registra aproximadamente 35 mil veículos por dia.
Nos períodos de maior movimento, a pressão aumenta. No Carnaval, por exemplo, cerca de 32 mil veículos circulam pela RJ-104 e 38 mil na RJ-106. Durante o Natal e o Ano Novo, os números chegam a 38 mil e 42 mil veículos, respectivamente.
O volume transforma as rodovias estaduais em artérias vitais para a circulação de trabalhadores, estudantes e moradores que precisam chegar a Niterói, ao Rio ou a municpípios da Região dos Lagos. Travessias marcadas por reclamações sobre conservação, iluminação, sinalização e segurança.
Reflexos do abandono
A ausência de manutenção na RJ-106, por exemplo, reflete nos números de acidentes. Segundo dados do Departamento de Estradas de Rodagem do Rio de Janeiro (DER-RJ), a rodovia registrou 1.151 acidentes em 2024, com 52 mortes. É nesse cenário que a discussão sobre os radares ganhou força em 2026. Foram previstos 133 novos equipamentos em 78 trechos da RJ-106. A instalação provocou reclamações de motoristas e moradores, principalmente em pontos considerados sensíveis durante a noite.
Para os usuários, entretanto, a fiscalização é apenas uma parte da discussão. Antes de controlar a velocidade, há quem cobre melhores condições para circular pela estrada.
Precariedade
O taxista Luiz Cláudio Medeiros, de 53 anos, morador de Niterói, é frafega pelas rodovias regularmente. Para ele, a situação encontrada nas pistas não corresponde à importância que RJs 104 e 106 merecem diante da circulação de milhares de motoristas diariamente.
“É muito difícil. Falta sinalização. Apesar de terem pintado, os buracos continuam no mesmo lugar. Fizeram a ‘façanha’ de pintar a pista sem resolver o problema do asfalto. A iluminação também é precária, parece iluminação de Natal: fica piscando o tempo todo e, quando não está piscando, está apagada. Na RJ-106, as condições são praticamente as mesmas”, disse.
A falta de proteção para pedestres também preocupa o taxista. Segundo ele, mesmo onde existem passarelas, ainda há situações que favorecem a travessia irregular.
“Em áreas de passarela não tem uma tela ou alguma coisa para impedir que os pedestres atravessem. O que acontece? Eles acabam passando por baixo da passarela e pode acontecer algum acidente. E, no nosso caso, além das taxas que a gente paga como motorista de táxi, também tem o IPVA. E a gente não vê retorno nenhum”, completa.
A presença dos radares acrescentou outra camada à insatisfação. A principal crítica não é apenas à fiscalização, mas à escolha dos locais onde os equipamentos foram instalados.
“Tiraram todos os radares e depois voltaram colocando muito mais. Tem radar que fica logo depois da curva. A gente percebe que, na verdade, não é para inibir acidente, é para arrecadar, né? Porque, se você coloca um radar logo depois de uma curva, é para arrecadar, não para evitar acidente”, afirma.
Para quem passa pelas rodovias diariamente, a expectativa é que o próximo governo trate a segurança viária como uma questão mais ampla. “Mais fiscalização! Policiamento, que é pouco. Recapeamento e iluminação também. Melhoraria bastante”, concluiu.
Transporte púlico

Se nas rodovias o problema aparece no asfalto, para quem depende dos ônibus a dificuldade começa antes mesmo da viagem. A estudante Caroline Dias, de 21 anos, mora em São Gonçalo e precisa se deslocar diariamente para Niterói para estudar. A rotina inclui espera no ponto, poucas opções de linhas intermunicipais e viagens em veículos cheios. O custo também pesa. Segundo ela, uma passagem próxima de R$ 10,00 representa uma despesa significativa para quem precisa fazer o trajeto todos os dias.
“Já cansei de ficar mais de meia hora esperando no meu bairro, e é ruim porque só tenho duas linhas disponíveis. Ou eu venho pela BR ou pela Alameda, e a Alameda é horrível”, afirma a universitária, que se desloca diariamente de ônibus no trajeto São Gonçalo – Niterói.
A universitária calcula que gasta R$ 18,20 por dia com o deslocamento. Para ela, o valor ganha ainda mais peso diante da qualidade do serviço oferecido.
“Cada vez mais, fica mais caro, enquanto o serviço fica sucateado. Os ônibus estão cada vez mais cheios. Daqui a pouco vai ter gente sentando ali do lado do motorista, como muitas vezes já acontece”, disse.
O problema não está necessariamente apenas no intervalo entre os ônibus. Mesmo quando há veículos circulando a cada dez minutos, a quantidade pode não ser suficiente para atender a demanda dos bairros mais populosos. A consequência, segundo ela, é passar uma parte significativa do dia em pé.
“Eu sempre vou em pé. Tem pessoas que ainda conseguem ir sentadas, mas passar duas horas, uma hora e meia em pé todos os dias é complicado. Daqui a pouco eu vou estar com trombose”, desabafou a estudante.
Caos na terra e no mar

A ligação entre o Leste Fluminense e a capital não depende apenas das rodovias. Para moradores de Niterói e de cidades próximas, as barcas representam uma alternativa à Ponte Rio-Niterói e ao trânsito intenso nos acessos à capital do estado. O transporte aquaviário, porém, também é alvo de reclamações dos passageiros. A principal delas envolve o intervalo entre as viagens e as condições das embarcações.
Em março de 2025, a tarifa da linha Arariboia, entre Niterói e a Praça XV, foi reduzida de R$ 7,70 para R$ 4,70, com subsídio do governo estadual. Em fevereiro de 2026, porém, o valor foi reajustado para R$ 5. O aumento de R$ 0,30 passou a valer no dia 9 daquele mês. A redução do preço, entretanto, não eliminou as queixas relacionadas à operação.
Maiara Macario, de 26 anos, professora e moradora de Maricá, utiliza as barcas para fazer o deslocamento em direção ao Rio. Para ela, o tempo de espera é um dos principais problemas enfrentados atualmente. A lotação aparece justamente nos horários em que trabalhadores e estudantes mais precisam do serviço.
“Então, eu acho que o tempo de espera, que agora está em 30, 20 minutos, é muito longo. E, pelo fato de terem diminuído a quantidade de barcas, demora mais e, quando chega, vem lotada. De manhã vem superlotada e, à noite, também, principalmente por volta das 16h, 17h e 19h”, lembra a docente.
Linha 3: lenda urbana ou realidade?

No horizonte de longo prazo, uma das principais apostas para modificar a mobilidade do Leste Fluminense é a Linha 3 do Metrô. A proposta original contemplava um corredor metroviário que ligaria Niterói, São Gonçalo e Itaboraí. No entanto, após inúmeras modificações, a mais recente ideia apresentada por municípios e postulantes ao cargo de governador envolve o corredor unindo Rio, Niterói e São Gonçalo, através de uma travessia subterrânea pela Baía de Guanabara. O projeto prevê 12 estações.
Em estudo de mobilidade urbana, o BNDES mapeou 15 projetos prioritários para expansão de metrô, VLT e BRT no Rio, na Baixada Fluminense e na Região Metropolitana. Juntos, os projetos representam 544 quilômetros de extensão e demandariam pelo menos R$ 68 bilhões para serem executados ao longo das próximas décadas.
O valor dá a dimensão do tamanho do desafio. Não se trata apenas de uma obra isolada, mas de uma transformação de longo prazo na forma como a população se desloca pelo estado.
Para o Leste Fluminense, a Linha 3 pode representar uma mudança histórica na mobilidade urbana. São Gonçalo, segunda maior cidade mais populosa do estado, permanece sem ligação metroviária direta com a capital. Niterói possui a conexão por barcas, mas não tem uma rede de metrô própria que alcance os principais eixos de circulação do município e de sua vizinha São Gonçalo.
Um desafio que começa antes do metrô
Para o professor Filipe Ungaro Marino, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), o principal problema da mobilidade no Leste Fluminense é a concentração do fluxo em poucos eixos. A região depende de corredores como a RJ-104 e a RJ-106 e ainda tem poucas alternativas de transporte de alta capacidade.
Segundo o especialista, a dependência da Ponte Rio-Niterói agrava o cenário. Com fluxo médio de cerca de 150 mil veículos por dia, a ligação se torna um ponto de concentração para quem se desloca entre o Leste Fluminense e a capital. “Todo o sistema fica muito dependente do bom funcionamento dessa única infraestrutura. Isso é muito problemático”, afirma.
O crescimento populacional de cidades como Maricá e São Gonçalo também tende a ampliar a demanda, principalmente pela relação econômica desses municípios com o Rio de Janeiro. Para Leandro, a integração regional esbarra ainda na falta de conexões robustas entre as cidades e em uma governança fragmentada, na qual diferentes municípios e modais são administrados por estruturas distintas.
Essa falta de integração aparece, por exemplo, no transporte aquaviário. Embora Niterói tenha ligação regular com a Praça XV no Rio, São Gonçalo não dispõe de uma conexão por barcas integrada ao sistema metropolitano. O professor considera que a Baía de Guanabara poderia ser mais aproveitada para reduzir a dependência das ligações rodoviárias.
“Passou da hora da gente pensar novos trajetos e novos modelos de operação para o sistema de barcas”, reflete o professor.
Nas RJ-104 e RJ-106, Filipe classifica a precariedade como um problema estrutural. Na avaliação dele, as rodovias não contam com um planejamento contínuo de recapeamento e manutenção e não recebem prioridade suficiente de investimento.
“Elas não têm um plano contínuo de recapeamento, de manutenção, elas não recebem prioridade de investimento. […] Então realmente essa precariedade é estrutural na operação estadual dessas duas rodovias”, avalia.
A Linha 3 do metrô é apontada pelo especialista como uma das soluções de longo prazo, mas não deve ser tratada como uma obra isolada. O projeto enfrenta, segundo Filipe, obstáculos financeiros, técnicos e políticos. Obras metroviárias costumam levar mais de uma gestão para serem concluídas, o que dificulta a continuidade de projetos de longo prazo.

Outro ponto considerado fundamental é a conexão da Linha 3 com o Rio. Na avaliação do professor, construir apenas o trecho entre Niterói e São Gonçalo poderia transferir parte da pressão para a Ponte Rio-Niterói e para as barcas.
“Se a gente executar a Linha 3, mas não executar a conexão com o Rio de Janeiro, nós teremos essa Linha 3 ligando um grande fluxo de pessoas e concentrando no sistema barca-ponte”, explica o especialista.
Para os próximos quatro anos, Marino defende uma combinação de medidas imediatas e projetos estruturantes. Entre elas estão a recuperação das rodovias, a ampliação das barcas, a implantação da Linha 3 e o desenvolvimento de alternativas de BRT em escala metropolitana.
A gente precisa que os municípios conversem entre si, que um sistema único de mobilidade funcione, que a gente tenha um bilhete único que funcione para todos os modais da metrópole”, — Filipe Ungaro Marino, professor da Uerj.
Para o professor, o maior desafio do próximo governador será justamente coordenar interesses de diferentes municípios e definir prioridades diante da dimensão dos investimentos necessários. A tarefa, segundo ele, passa por pensar não apenas nas obras que podem ser entregues nos próximos quatro anos, mas em uma rede de transporte capaz de atender a região metropolitana no longo prazo.
Quando o estado falha os municípios entram em ação
São Gonçalo
Em São Gonçalo, o principal projeto em andamento é o MUVI (Mobilidade Urbana Verde Integrada), realizado em parceria entre a Prefeitura e o Governo do Estado. Com mais de 18 quilômetros de intervenções entre Neves e Guaxindiba, o projeto inclui pavimentação, drenagem, calçadas, ciclovia e faixas preferenciais para ônibus. As obras estão em fase final e já alteraram a circulação em bairros como Neves, Vila Lage, Centro, Alcântara e Jardim Catarina.
Itaboraí
Em Itaboraí, a principal preocupação é integrar melhor o transporte municipal ao sistema intermunicipal. A prefeitura aponta a ausência de um terminal de ônibus como um dos gargalos e cita os congestionamentos na BR-101, RJ-104 e RJ-114 como fatores que aumentam o tempo de deslocamento.
No longo prazo, a prefeitura pretende elaborar o Plano de Mobilidade Urbana (PlanMob) e realizar uma Pesquisa de Origem e Destino. Para Itaboraí, o próximo governo estadual deverá priorizar a integração do Leste Fluminense, com investimentos nos corredores viários e no transporte coletivo entre os municípios.
As administrações municipais de Maricá e Niterói também foram procuradas pela reportagem para apresentar as principais demandas e projetos de mobilidade das duas cidades, mas ainda não se manifestaram.
O que os candidatos propõem?
Se os problemas de mobilidade fazem parte da rotina de quem vive no Leste Fluminense, os candidatos ao Governo do Estado apresentam diferentes caminhos para enfrentar os gargalos:
- André Marinho (Novo)
Propõe reduzir em 25% o tempo médio de deslocamento em quatro anos, tomando como referência 52 minutos. O plano prevê a Linha 3 entre Praça XV, Niterói e São Gonçalo, Bilhete Único Metropolitano, aplicativo com informações em tempo real e Passe Livre para jovens em formação técnica. Também defende uma Autoridade Metropolitana de Mobilidade para integrar trens, metrô, ônibus, BRT, vans e barcas.
- Coronel Busnello (Missão)
Propõe um terminal aquaviário no Gradim, em São Gonçalo, com ferry-boats e catamarãs para ligação com a capital, além de novas rotas para a Baixada e a Ilha do Governador. Na área metroviária, defende a extensão da Linha 2 até Arariboia e a implantação da Linha 3 entre Niterói e São Gonçalo. Também prevê BRT na RJ-106, entre São Gonçalo e Maricá, recuperação da rodovia e integração da bilhetagem.
- Cyro Garcia (PSTU)
Defende redução imediata das tarifas, passe livre para desempregados e uma transição para a tarifa zero. O plano também prioriza a expansão da rede metroferroviária, com investimentos públicos e subsídios para ampliar a oferta e reduzir os preços.
- Douglas Ruas (PL)
Propõe viabilizar a Linha 3 entre Niterói e São Gonçalo e reorganizar as linhas intermunicipais como alimentadoras dos principais corredores. Também defende faixas exclusivas, integração entre metrô, trens, barcas, BRT e ônibus, tarifa social e gratuidade para mulheres de baixa renda responsáveis por deslocamentos de crianças, idosos ou pessoas com deficiência. O plano inclui ainda uma plataforma digital com informações em tempo real e reforço da estrutura do DER-RJ.
- Eduardo Paes (PSD)
Prevê iniciar as obras da Linha 3 para Niterói, São Gonçalo e Itaboraí até o fim de um eventual mandato. Também propõe ampliar o BRT para outras cidades, melhorar o transporte metropolitano e intermunicipal e recuperar as estradas estaduais.
- Juliete Pantoja (UP)
Propõe reduzir em 50% as tarifas de transporte a partir de janeiro de 2027 e criar o Bilhete Único Intermodal e Intermunicipal. O plano prevê passe livre para estudantes, expansão das redes metroviária e ferroviária, chegada do metrô a Niterói e São Gonçalo e redução dos intervalos dos trens.
- Luan Monteiro (PCO)
É o único candidato analisado cujo plano de governo, segundo o levantamento da reportagem, não apresenta propostas específicas para a mobilidade estadual.
- Willian Siri (PSOL)
Defende um Bilhete Único Estadual Integrado, com participação do estado e dos municípios, abrangendo ônibus, vans, BRT, VLT, metrô, trens e barcas. Também propõe um Bilhete Único Mensal e redução progressiva das tarifas.
- Anthony Garotinho
O candidato teve a candidatura indeferida pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) nesta sexta-feira (11). A decisão ainda cabe recurso.