A disputa por espaço entre ciclistas e passageiros em ciclofaixas tem gerado riscos diários em Niterói, na Região Metropolitana do Rio. Passageiros que precisam atravessar nos trechos para embarcar ou desembarcar de veículos, por exemplo, denunciam a falta de educação no trânsito por parte de ciclistas e o risco constante de acidentes.
A equipe do ENFOCO percorreu ruas da cidade e constatou dificuldades, principalmente em áreas onde a ciclofaixa é próxima a pontos de embarque e desembarque. Passageiros que aguardam ônibus, táxis, ou carros por aplicativo precisam atravessar o espaço destinado às bicicletas e relatam insegurança ao realizar o trajeto até o veículo.

Na zona norte da cidade, o autônomo Luiz Antônio afirma que prefere aguardar a passagem dos ciclistas antes de seguir até o ônibus para evitar acidentes. “Eu sempre deixo eles passarem primeiro para não correr o risco de ser atropelado. É complicado”, relata. Segundo ele, nem todos reduzem a velocidade ou dão preferência ao pedestre.
Apesar de haver sinalização horizontal indicando atenção aos pedestres em alguns trechos, a medida nem sempre é respeitada, de acordo com usuários da via.
Já na Avenida Visconde do Rio Branco, uma das principais vias do Centro, taxistas que trabalham em um ponto ao lado de uma ciclovia, em frente ao terminal de ônibus, relatam que a situação é a mesma. Segundo eles, a combinação de pressa e desatenção dos ciclistas contribui para acidentes frequentes.
“Acontece muito acidente. Ninguém respeita ninguém. O passageiro fica à mercê deles para não ser atropelado”, relata um taxista, que preferiu ter a identidade preservada.



Ainda de acordo com os relatos, somente no início deste mês, pelo menos dois acidentes já foram registrados em um único dia em uma cicloafaixa próxima a um ponto de embarque, envolvendo ciclistas e duas mulheres.
E os ciclistas?
Do lado dos ciclistas, a avaliação é de que o problema envolve múltiplos fatores. O entregador por aplicativo Gabriel Santos afirma, por exemplo, que a alta velocidade não é justificável, mas reconhece que muitos profissionais, como ele, enfrentam pressão por tempo nas entregas. “No nosso caso, temos um tempo a cumprir; se não cumprimos, somos punidos. Então, acabamos correndo contra o tempo e trabalhar sempre com pressa”, diz.

O ciclista Eduardo Ribeiro, que se desloca diariamente para o trabalho, defende que a responsabilidade não é apenas dos ciclistas: “Alguns pedestres também atravessam sem olhar ou de forma inesperada, e isso aumenta o risco. Todo mundo precisa ter atenção. Nem sempre a culpa é só do ciclista. Além disso, tem gente que, em vez de andar na calçada, quer andar nas ciclofaixas e ciclovias”, afirma.
Ações educativas
A Coordenadoria Niterói de Bicicleta informa que a convivência segura entre ciclistas e pedestres é uma diretriz estruturante da política municipal de mobilidade ativa.
Por meio do Polo Cicloviário Arariboia, a Coordenadoria realiza ações educativas contínuas para ciclistas e pedestres, com foco na proteção do elo mais frágil do trânsito e no reforço do respeito mútuo e da atenção em áreas de maior fluxo. Além disso, já foram realizadas campanhas específicas voltadas ao respeito aos pedestres, como a “Respeito também faz parte da pedalada”.
De acordo com o programa, as campanhas também incluem orientação da velocidade adequada e comportamento seguro nas infraestruturas cicloviárias. Além disso, o programa mantém iniciativas permanentes de formação, como o FormaBike, que incentiva o uso responsável da bicicleta e promove a educação para o trânsito.
O que diz o Código de Trânsito Brasileiro (CTB)
De acordo com o CTB os pedestres têm prioridade sobre os veículos por serem os mais vulneráveis em casos de sinistros de trânsito.
O artigo 70 diz que se o pedestre estiver atravessando a via sobre as faixas delimitadas para essa finalidade terá prioridade de passagem.
Nos locais em que houver sinalização com semáforos, a preferência será dada ao pedestre que não tenha concluído a travessia, mesmo que o semáforo mude a cor liberando a passagem para os veículos.
Por causa de sua vulnerabilidade é importante que o pedestre tenha atitude responsável no trânsito e não espere apenas que o condutor respeite a legislação. No trânsito, todos devem respeitar uns ao outros, bem como dividir a responsabilidade pela segurança viária.