Cinco pessoas foram indiciadas pela Polícia Civil pelo incêndio que atingiu o Shopping Tijuca, na Zona Norte do Rio, na noite de 2 de janeiro deste ano. O episódio resultou na morte da bombeira civil Emellyn Silva Aguiar Menezes e do supervisor de segurança Anderson Aguiar do Prado, além de deixar outras quatro pessoas feridas, segundo o inquérito concluído pela corporação.
De acordo com a investigação, conduzida por duas delegacias especializadas, a responsabilização envolve gestores do centro comercial e da loja onde o fogo começou. Dois funcionários do shopping foram indiciados por incêndio doloso qualificado pela morte, lesão corporal culposa, crime de perigo para a vida ou saúde de terceiros e fraude processual. Uma terceira envolvida responderá pelos mesmos delitos, exceto fraude processual. Além deles, dois funcionários da loja foram indiciados por incêndio doloso e lesão corporal.
Ao longo das apurações, 38 testemunhas foram ouvidas. Os depoimentos reunidos indicaram falhas na comunicação interna após o início do incêndio, ausência de alarmes eficientes, evacuação considerada desorganizada e treinamento insuficiente das equipes. A polícia também apontou demora na transmissão de informações precisas sobre a situação de emergência.
Segundo os investigadores, o Corpo de Bombeiros deveria ter sido acionado simultaneamente às primeiras medidas de combate à fumaça no subsolo. O botão de emergência da loja foi acionado às 18h04, mas o chamado oficial à corporação ocorreu apenas às 18h27. As equipes chegaram ao local às 18h40. Para a polícia, esse intervalo comprometeu o enfrentamento inicial do incêndio e contribuiu diretamente para as duas mortes.
Ainda conforme o inquérito, a loja não possuía alvará de funcionamento emitido pelo Corpo de Bombeiros, e o shopping não dispunha de sistema de exaustão adequado para contenção da fumaça. A perícia também constatou que houve autorização para entrada de pessoas em área já isolada e retirada de um objeto relevante para a investigação, o que motivou o indiciamento por fraude processual.
O laudo técnico apontou que o cenário encontrado reunia instalações elétricas fora dos padrões, alta carga de material combustível, falhas de compartimentação e atuação considerada insuficiente dos sistemas de combate ao fogo, fatores que favoreceram a rápida expansão das chamas.
O incêndio
A perícia classificou a causa como um “acidente termoelétrico”, ou seja, um evento de origem elétrica considerado previsível dentro de um ambiente avaliado como tecnicamente inadequado. O documento afirma que o incêndio foi potencializado por sucessivas falhas estruturais e de segurança.
Os peritos destacaram que tanto a loja quanto o shopping não contavam com sistema eficaz de controle de fumaça em operação. O local foi descrito como tecnicamente inseguro, com instalações elétricas em desacordo com normas, elevada carga de incêndio, inclusive em áreas técnicas, além de falhas de compartimentação e ausência de controle adequado da fumaça, elementos que contribuíram para a magnitude do evento.
Um dos responsáveis pela perícia afirmou que foram identificadas inadequações contínuas nos procedimentos de prevenção contra incêndio e mencionou que relatórios anteriores já apontavam problemas estruturais.
O que diz o shopping
Em nota, o shopping informou que adotou os procedimentos previstos na legislação e que notificou imediatamente a loja Bell’Art para que tomasse as providências cabíveis. Segundo o empreendimento, a evacuação foi realizada conforme plano elaborado por empresa especializada e aprovado pelo Corpo de Bombeiros, o que permitiu a saída de cerca de 7 mil pessoas sem registro de feridos.
“O Shopping reforça que agiu dentro dos protocolos de atuação previstos na legislação vigente (…) O Shopping reitera seu compromisso com a sociedade e sua inteira disposição em colaborar com a Justiça”, diz o comunicado, que também lamenta a morte dos dois funcionários.
Leia a nota na íntegra:
“O Shopping reforça que agiu dentro dos seus protocolos de atuação previstos na legislação vigente, notificando imediatamente a loja Bell’Art para que tomasse as devidas providências. Destaca ainda que executou a evacuação seguindo o plano elaborado por empresa especializada e aprovado pelo Corpo de Bombeiros, o que garantiu que 7 mil pessoas deixassem o local sem qualquer ferimento.
O Shopping reitera seu compromisso com a sociedade e sua inteira disposição em colaborar com a Justiça. Lembra ainda, com consternação, a perda dos seus dois corajosos colaboradores, Emellyn e Anderson, algo irreparável”.
Relembre o caso
O incêndio começou no subsolo do centro comercial e gerou uma densa nuvem de fumaça que se espalhou rapidamente, levando à interdição da área inferior e de parte do térreo.

Imagens das câmeras de segurança registraram os momentos finais das duas vítimas. Em depoimento, o chefe da brigada relatou que Anderson retornou à loja quando o fogo já estava avançado e a fumaça intensa, tentando resgatar brigadistas que haviam permanecido no interior do estabelecimento. Ele conseguiu orientar a saída de uma delas, mas voltou ao local para procurar a outra e acabou desmaiando.
As investigações apontam que a combinação entre falhas estruturais, deficiência nos mecanismos de segurança e atraso na resposta à emergência foi determinante para o desfecho do caso. O inquérito foi encaminhado ao Ministério Público, que decidirá sobre eventual denúncia à Justiça.