Na segunda maior cidade do estado do Rio de Janeiro, onde mais da metade dos trabalhadores depende do ônibus para chegar ao emprego, o cotidiano em São Gonçalo começa, quase sempre, em filas improvisadas ao ar livre. Debaixo de sol forte ou chuva repentina, moradores se espalham por calçadas, acostamentos e vias movimentadas porque, apesar do tamanho e da demanda, o município ainda não possui um terminal rodoviário que organize e concentre suas linhas municipais e intermunicipais.
O que existe hoje está longe de cumprir esse papel. Sob o viaduto do bairro Alcântara, principal polo comercial da cidade, funciona uma estrutura informal, apelidado por usuários de “terminal”, mas que atende apenas parte das linhas intermunicipais.
Já ao lado do Pátio Alcântara, outro ponto considerado terminal, a operação se limita a uma única empresa. O resultado é um sistema fragmentado, que empurra ônibus para ruas residenciais e avenidas de grande fluxo, transformadas em pontos finais improvisados.
Linhas como Magé–Alcântara, Rio Bonito–Alcântara, Neves–Alcântara, Estácio–Jardim Alcântara, Cala Boca-Fórum, além de diversas rotas municipais, encerram suas viagens em plena via pública. Passageiros descem no meio do tráfego, disputam espaço com carros e convivem diariamente com a sensação de insegurança.
Capital do ônibus
A contradição se torna ainda mais evidente quando os números entram em cena. Dados do Censo 2022 do IBGE, divulgados em 2025, mostram que São Gonçalo é a cidade brasileira onde mais se utiliza ônibus para o deslocamento ao trabalho: 58,4% dos trabalhadores dependem dos coletivos.

O índice supera o de municípios vizinhos e da própria capital fluminense. Em Niterói, esse percentual é de 40%; em Maricá, 44%; em Itaboraí, 46%; no Rio de Janeiro, 34%. Em cidades da Região dos Lagos, como Saquarema e Rio Bonito, os índices são ainda menores.
Com 896.744 habitantes, São Gonçalo só perde em população para a capital no estado. Localizada do outro lado da Baía de Guanabara, a cidade depende exclusivamente do sistema viário para deslocamentos internos e para fora do município.
As conexões se dão principalmente pela BR-101 (Niterói-Manilha), pela RJ-104, que liga o município a Niterói, e pela RJ-106, em direção à Região dos Lagos. Para chegar ao Rio, onde muitos gonçalenses trabalham, é preciso passar por Niterói e, então, atravessar a Ponte Rio-Niterói ou usar as barcas, que também partem da cidade vizinha.
Insegurança
Esse movimento intenso se reflete no dia a dia de quem vive na cidade. Kátia Martins, de 53 anos, mora no Jardim Alcântara e trabalha no Centro do Rio. Usuária da linha 520 (Estácio–Jardim Alcântara), ela diz que o trajeto de volta para casa é sempre o mais tenso.
“Depois de um dia inteiro de trabalho, descer no ponto final, à noite, sem iluminação adequada e sem movimento organizado, dá medo. A gente fica vulnerável”, relata a doméstica.
A insegurança não é exclusividade de quem chega. Para quem espera, o cenário também é hostil. O estudante Gabriel Pereira, de 23 anos, mora no Centro de São Gonçalo e utiliza com frequência a linha 53, que liga a região ao bairro Cala Boca.
Em dias de calor intenso, ele precisa aguardar o ônibus à margem da Avenida Presidente Kennedy, na altura do bairro Zé Garoto. “É uma falta de respeito com o usuário. Mal tem cobertura, e organização, nem se fala. Se existisse um terminal de verdade, com várias linhas concentradas, melhoraria muito”, afirma.

Gabriel observa que, na prática, os únicos espaços que se aproximam da ideia de terminal são os pontos intermunicipais sob o viaduto do Alcântara e o ponto final das linhas 408 e 409, que ligam Alcântara a Niterói, que ficam embaixo do Pátio Alcântara. “Mas isso está longe de atender uma cidade desse tamanho”, diz.
A precariedade também afeta quem trabalha no sistema. Um rodoviário de 42 anos, funcionário de uma das empresas que operam sob o viaduto do Alcântara e que preferiu não se identificar, afirma que o local não oferece condições adequadas.
“Falta estrutura básica. À noite, os pontos viram abrigo para pessoas em situação de rua. Isso aumenta o risco e afasta passageiros. Não é um ambiente seguro nem para quem trabalha, nem para quem usa”, relata.
Passagem cara
Enquanto isso, os custos do transporte seguem pesando no bolso da população. A tarifa do ônibus municipal em São Gonçalo deu um salto de R$ 3,95 para R$ 5,55, no último mês de novembro. Já as linhas intermunicipais para o Rio foram de R$ 8,55 para R$ 9,40 com o uso do Bilhete Único Intermunicipal (BUI).
Para uma cidade onde o ônibus é a principal forma de deslocamento, qualquer aumento amplia o impacto sobre o orçamento familiar, especialmente quando o serviço continua sem infraestrutura básica.
E o terminal, cadê?
A prefeitura, sob a gestão do prefeito Capitão Nelson (PL), toca atualmente uma das maiores obras viárias da cidade: o projeto Mobilidade Urbana Verde Integrada (MUVI). A iniciativa prevê a criação de novas pistas, faixas exclusivas para ônibus e intervenções urbanísticas ao longo do eixo leste-oeste do município. O objetivo oficial é melhorar a fluidez do trânsito e o transporte público.
A pergunta que fica entre os passageiros, no entanto, é simples: para onde irão esses ônibus? Sem um terminal, os coletivos continuam ocupando ruas residenciais, faixas de rolamento e acostamentos, ampliando conflitos urbanos e sobrecarregando áreas que não foram planejadas para esse fim.
Em 2022, ao apresentar o MUVI, a prefeitura informou que, além das intervenções urbanísticas e da revitalização de áreas degradadas, “um novo terminal rodoviário será erguido em Alcântara”. Até agora, porém, não há cronograma público, local definido ou detalhes sobre a integração de linhas municipais e intermunicipais.

Procurada, a Prefeitura de São Gonçalo afirmou, em resposta ao ENFOCO, que ‘vê como positiva a instalação de um terminal rodoviário na cidade’, mas ponderou que, no momento, há outras iniciativas consideradas mais urgentes para a população.
Segundo a administração municipal, a avaliação leva em conta “o ínfimo orçamento disponível para a gestão”.
A Secretaria de Estado de Transporte e Mobilidade Urbana (Setram) do Rio de Janeiro também foi procurada para informar se existe algum estudo em andamento, em parceria com a prefeitura de São Gonçalo ou com empresas privadas voltada à construção de um terminal rodoviário no município. Mas ainda não se manifestou sobre o caso.
Para quem vive a rotina das paradas improvisadas, o argumento não convence. Moradores defendem que um terminal não é luxo nem obra estética, mas peça básica de organização urbana. Em uma cidade onde o ônibus dita o ritmo da vida, a ausência desse equipamento reforça desigualdades, amplia riscos e transforma o simples ato de ir e vir em um exercício diário de resistência.
Entre projetos futuros, promessas antigas e obras em andamento, São Gonçalo segue esperando. Não apenas pelo próximo ônibus, mas por uma estrutura que reconheça, enfim, a dimensão de sua população e a centralidade do transporte coletivo no cotidiano da cidade.