Um ano após a Operação Contenção, realizada nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, as circunstâncias das 121 mortes registradas durante a ação ainda não foram totalmente esclarecidas. A investigação conduzida pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), com participação de outras instituições, reúne depoimentos, laudos periciais e milhares de horas de gravações para reconstruir os acontecimentos de outubro de 2025.
Deflagrada em 28 de outubro daquele ano, a operação mobilizou mais de 2,5 mil policiais civis e militares. O balanço inicial apontou 121 mortos, incluindo quatro agentes de segurança. Em novembro, o número de policiais mortos chegou a cinco, após a morte de um agente que estava internado.
A versão apresentada pelas forças de segurança é que as 117 pessoas que não eram policiais morreram durante confrontos armados. Moradores e familiares, entretanto, relataram possíveis episódios de tortura e execução.
A investigação também identificou situações consideradas atípicas, além de indícios de irregularidades relacionados ao uso de câmeras corporais. Até 27 de outubro de 2026, não havia uma conclusão geral sobre as circunstâncias das mortes.
Operação Contenção deixou 121 mortos em dois complexos do Rio
A mobilização policial começou ainda durante a madrugada de 28 de outubro de 2025. Segundo as autoridades, o objetivo era capturar lideranças criminosas que atuavam a partir dos complexos do Alemão e da Penha, incluindo integrantes de grupos com atuação em outros estados.
A ação fazia parte da Operação Contenção, uma estratégia do governo estadual para combater a expansão territorial do Comando Vermelho e atingir a estrutura financeira, logística e operacional da organização criminosa.
Durante o dia, moradores enfrentaram horas de confrontos armados, enquanto policiais avançavam pelas ruas e vielas das comunidades. Também foram registrados incêndios de ônibus atribuídos a criminosos.
As imagens de corpos alinhados em uma rua da Vila Cruzeiro, na Penha, tiveram repercussão nacional e internacional e aumentaram a pressão por respostas sobre as mortes.
Familiares contestam versão oficial sobre as mortes
Enquanto a polícia atribuiu as mortes de pessoas que não eram agentes de segurança aos confrontos, familiares e moradores relataram situações que levantaram suspeitas de execuções e violência durante a operação.
Esses relatos passaram a integrar o contexto das investigações. O objetivo é verificar, caso a caso, as circunstâncias dos óbitos, a dinâmica dos disparos e a eventual responsabilidade de agentes públicos ou de outras pessoas.
A confirmação de possíveis crimes depende da análise conjunta dos depoimentos, das provas técnicas e dos demais elementos reunidos pelas autoridades.
MPRJ já ouviu 255 policiais e 61 pessoas presas
O Ministério Público do Rio de Janeiro abriu um Procedimento Investigatório Criminal (PIC) para apurar as mortes ocorridas durante a operação de 28 e 29 de outubro de 2025.
O procedimento é conduzido pelo promotor de Justiça Fabio Correa, coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do MPRJ.
Segundo informações divulgadas pelo Ministério Público, foram colhidos depoimentos de 255 policiais civis e militares que participaram da ação. Os investigadores também ouviram 61 pessoas presas durante a operação.
Além disso, o órgão entrou em contato com familiares de todas as vítimas e conseguiu ouvir 45 parentes.
O trabalho inclui o acompanhamento das necropsias realizadas pelo Instituto Médico-Legal (IML) e a análise de laudos periciais. A investigação pretende confrontar os relatos com as evidências técnicas para esclarecer o que aconteceu durante a ação.
Quatro mil horas de imagens estão sob análise
Um dos principais desafios da investigação é o volume de gravações feitas pelas câmeras corporais utilizadas pelos policiais.
O MPRJ obteve aproximadamente 4 mil horas de imagens, que estão sendo analisadas para ajudar a reconstruir os acontecimentos.
No entanto, as gravações não registraram integralmente a atuação de todos os agentes. Segundo as autoridades de segurança pública, parte das câmeras deixou de funcionar depois que as baterias se esgotaram ao longo da operação.
Um levantamento citado pela Agência Brasil também identificou indícios de que algumas câmeras foram desligadas propositalmente ou tiveram as lentes obstruídas. A análise de 51 equipamentos utilizados pelo Batalhão de Operações Especiais (Bope) apontou que pelo menos 17% foram desligados intencionalmente e que 7,8% apresentaram sinais de obstrução da lente.
Esses dados acrescentam uma dimensão importante à apuração sobre a documentação da operação. A análise dos registros precisa identificar em quais circunstâncias ocorreram as interrupções e se elas prejudicaram o esclarecimento de episódios específicos.
Casos de morte por disparos a curta distância e decapitação são investigados
Entre os episódios examinados pelo Ministério Público, dois chamaram a atenção dos peritos por apresentarem características consideradas atípicas.
Um deles envolve uma pessoa morta por disparos efetuados a curta distância. O outro é o caso de uma vítima encontrada decapitada.
De acordo com o promotor Fabio Correa, as duas situações permaneciam sob investigação e ainda não permitiam conclusões definitivas.
A análise desses casos inclui laudos, depoimentos e outros elementos de prova. A falta de perícia diretamente nos locais dos crimes, segundo as informações divulgadas, dificulta a reconstrução de determinadas circunstâncias.
O Ministério Público busca esclarecer não apenas esses episódios, mas a totalidade das mortes ocorridas durante a operação, incluindo as de policiais.
MPRJ denunciou policiais por outras irregularidades
Além da investigação sobre os óbitos, apurações relacionadas à operação identificaram suspeitas de outros desvios de conduta.
Até junho de 2026, o MPRJ havia denunciado 27 policiais por ocorrências como desvio de fuzis apreendidos, furtos de peças de veículos e outros bens, invasões de domicílio e constrangimento de moradores.
Essas denúncias tratam de condutas específicas identificadas durante a operação e não representam, por si só, uma conclusão sobre a responsabilidade pelas 121 mortes.
Os casos seguem os procedimentos judiciais correspondentes, enquanto a investigação principal continua reunindo elementos para esclarecer as circunstâncias dos óbitos.
Relatório internacional aponta questionamentos sobre a operação
Em março de 2026, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgão ligado à Organização dos Estados Americanos (OEA), divulgou um relatório com questionamentos sobre a condução da operação e das investigações posteriores.
O documento abordou a estratégia policial utilizada, o elevado número de mortos e relatos sobre dificuldades no armazenamento dos corpos e na liberação para as famílias.
O relatório também registrou restrições iniciais de acesso da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro a laudos de autópsia e documentos periciais. Posteriormente, a instituição conseguiu acessar os materiais, mas ainda trabalhava para apresentá-los às famílias representadas.
Segundo o documento, houve relatos de lesões entre pessoas detidas durante a ação. Entre os presos, 17 apresentavam lesões e outros 36 tiveram laudos inconclusivos para maus-tratos ou tortura.
Esses registros foram apontados no relatório como elementos que exigem apuração e fiscalização dos procedimentos adotados.
Um ano depois, investigação ainda busca respostas
A Operação Contenção foi apresentada pelo governo estadual como uma iniciativa para combater o Comando Vermelho. Entretanto, o número de mortos, as denúncias de moradores e os questionamentos sobre a atuação policial mantêm o caso no centro do debate sobre segurança pública e direitos humanos no Rio.
A análise das câmeras corporais, os depoimentos de policiais e familiares e os laudos periciais são fundamentais para esclarecer as circunstâncias das mortes e determinar se houve responsabilidades individuais.
A Polícia Civil e a Polícia Federal também conduzem investigações relacionadas ao caso, mas, até a publicação das informações da Agência Brasil em 27 de outubro de 2026, não havia uma conclusão definitiva sobre todas as mortes.