Skip to content
Padre nega as acusações e afirma ter sido vítima do fiél. Foto: Divulgação / TJSC

Uma troca de acusações entre um padre e um fiél virou caso de polícia em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio. As denúncias envolvem ameaças, importunação sexual e até relatos de abusos. O caso está sob análise da Delegacia de Mutuá (72ª DP), que confirmou a instauração de procedimento para apurar os fatos narrados em boletins de ocorrência.

De acordo com o registro policial obtido pelo ENFOCO, o fiél procurou a delegacia após relatar ter recebido ligações consideradas intimidatórias, com frases como “tem gente te vigiando”, “eu sei onde você mora” e “vou te matar se você estiver com outra pessoa”. Segundo o boletim, as chamadas teriam ocorrido de forma recorrente.

No Termo Circunstanciado lavrado na unidade policial, o homem confessa ter mantido um relacionamento em segredo com o religioso e que, após o rompimento, passou a ser alvo de ameaças. O denunciante manifestou formalmente o desejo de representar criminalmente o tradicional padre que atua na cidade, o que deu início ao trâmite no Juizado Especial Criminal.

Relato de abusos desde a adolescência

Além das ameaças recentes, o denunciante garante que os episódios teriam começado ainda na adolescência quando tinha 13 anos, período em que frequentava atividades religiosas em uma paróquia de São Gonçalo. Segundo o relato prestado à polícia, o padre já exercia função religiosa e ocupava posição de autoridade espiritual.

“Ele sempre me olhava diferente”

Ainda de acordo com o denunciante, situações semelhantes teriam se repetido em outras ocasiões. “Na segunda confissão foi quando ele passou a mão em mim. Na última, ele me deu um beijo na boca. Depois disso, eu me afastei da igreja. Eu tinha 13 para 14 anos”, disse. O jovem também afirma que atividades promovidas durante as missas o colocavam com frequência em destaque. “Quase toda semana eu ganhava”, relatou, ao mencionar dinâmicas realizadas na paróquia.

Cidade de São Gonçalo
Episódios teriam começado quando o jovem frequentava a Paróquia Santana de Itaúna – Foto: Divulgação / Prefeitura de São Gonçalo

O denunciante afirma que, após a saída do padre da paróquia, houve tentativas de contato por redes sociais, que teriam sido bloqueadas. Segundo ele, anos depois, em 2025, decidiu se reaproximar com o objetivo de reunir elementos que considerava relevantes para uma denúncia.

De acordo com o relato apresentado à polícia, um encontro ocorreu em um shopping de Itaboraí. O jovem afirma que, posteriormente, durante uma viagem a Visconde de Mauá, no Sul Fluminense, a situação teria se agravado. “Eu já estava perplexo e com medo. Não sabia como iria fazer”, disse. Segundo o denunciante, durante a estadia, o padre teria tentado manter contato físico não consentido. “Ele veio pra cima de mim com tentativa de fazer sexo, tentou me beijar e tirar minha roupa”, afirmou.

Ainda conforme o depoimento, após resistir, o clima teria se tornado tenso. “Ele começou a fazer ameaças, disse que ia me matar, que tinha amigos polícia”, relatou. O jovem afirmou que passou a noite em claro, temendo pela própria segurança, e que as ameaças teriam continuado após o retorno ao Rio.

O boletim de ocorrência também reúne relatos de supostas tentativas de silenciamento. Segundo o denunciante, o padre teria oferecido ajuda financeira e outros benefícios para que o caso não fosse levado às autoridades. “Ele me deu um iPhone 13, um Pix de 300 reais e me ofereceu valores de 20 mil a 70 mil reais”, afirmou.

O outro lado da história

Procurado, o padre apresentou versão oposta e nega todas as acusações. Em declarações enviadas à reportagem, ele afirma ser vítima de ameaças, tentativa de extorsão e falsa comunicação de crime. “O registro de ocorrência mencionado se trata de uma denunciação caluniosa”, afirmou, sustentando que o boletim teria sido feito como forma de retaliação.

O pároco afirma ainda que, após os encontros mencionados pelo denunciante, passou a receber pedidos de dinheiro. Segundo ele, as solicitações teriam sido acompanhadas de ameaças à sua reputação. “Ele começou a pedir dinheiro, dizendo que, se eu não atendesse, me difamaria da pior forma”, declarou.

Segundo o religioso, cinco dias antes do registro na 72ª DP, ele próprio já havia procurado a Delegacia de Crimes Virtuais, em Manguinhos, para relatar ameaças que estaria sofrendo. “Tal registro aconteceu como uma retaliação, ao saber que eu tinha feito um registro de ocorrência”, disse, acrescentando que o caso foi encaminhado à 118ª DP (Araruama).

O padre afirma que bloqueou o denunciante nas redes sociais e no telefone, mas que continuou recebendo contatos por meio de números diferentes. “Todas as vezes que eu o bloqueava, ele tentava contato através de um novo chip”, declarou. Ele também nega qualquer abuso durante a adolescência do jovem.

“Meu relacionamento com ele sempre foi zero. Nunca houve abuso nenhum”

Sobre os relatos envolvendo confissões religiosas, o padre sustenta que havia procedimentos específicos. “As confissões das crianças eram feitas ao ar livre, na frente dos pais. As confissões em local reservado eram apenas para adultos”, disse. Em relação à ajuda financeira, afirmou que agiu por solidariedade. “Fiz um grande sacrifício para ajudá-lo”, declarou.

O religioso também contesta a forma como episódios e imagens foram interpretados pelo denunciante. “Ele diz que uma foto da primeira comunhão prova algo grave. Isso não prova nada”, declarou. Segundo ele, não havia contato próximo com o jovem.

Atuação atual do religioso

Atualmente, o padre atua como pároco na Região dos Lagos. Ele informou estar de férias e que sua permanência na função dependerá de decisão da autoridade eclesiástica. “A paróquia é do bispo. Estou à disposição da Igreja”, disse.

Investigação 

O caso está sob análise da Polícia Civil, que confirmou a investigação em curso pela 72ª DP (São Gonçalo). No entanto, a polícia informou apenas que diligências estão em andamento.

O que diz a Arquidiocese

Procurada, a Arquidiocese de Niterói, que também responde pelo município de São Gonçalo informou, em nota, que não recebeu até o momento qualquer denúncia formal sobre o caso. A instituição religiosa afirmou, no entanto, que irá apurar os fatos internamente de forma preventiva.

A arquidiocese afirma que ‘irá investigar ad cautelam (por cautela) o caso internamente, diante dessa informação ora apresentada, ainda que não oficial’.

A instituição acrescentou que, caso surjam indícios de conduta inadequada, serão adotadas as medidas cabíveis.

André Silva

André Silva

Bastante ativo na cobertura cultural, ja foi contemplado com o Prêmio Themis de Jornalismo, concedido pelo TJRS. Além da cultura, caminha por várias editorias, inclusive em cobertura de eventos internacionais, como a Cúpula do G20 e o encontro dos Brics. Instagram: @andrre.sillva