Reconhecimento

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Desde o dia 31 de julho, tenho celebrado o lançamento do meu primeiro livro, Em Busca da Verdade. Foto: Karina Cruz

Há alguns anos, quando eu fazia terapia, ouvi do meu analista que o reconhecimento é algo que preenche a alma. Falávamos disso porque eu tive uma compulsão por compras, em um período de minha vida, por meio da qual mascarava uma falta interior, e ele me dizia que sentir-se reconhecido, por algo de verdadeiro que se entrega, pode aplacar esses vazios.


Como muitos dos que me acompanham sabem, comecei a publicar meus artigos ano passado, em plena pandemia, e o veículo que me abriu as portas foi o Tribuna Diária, do meu querido Sileno Guimarães. Aos poucos, isso foi ganhando visibilidade, e desde o dia 31 de julho, tenho celebrado o lançamento do meu primeiro livro, Em Busca da Verdade, publicado pela Editora Armada, em noites de autógrafos pelo Sul e Sudeste do Brasil.


As emoções que isso tem me trazido são inimagináveis para mim. E isso advém do reconhecimento verdadeiro e legítimo, ancorado em algo que eu doo à sociedade, sob a forma dos meus artigos, que agora estão reunidos em livro, para a eternidade.


Essa legitimidade acontece em relação a tudo que é feito com amor e dedicação. Atravessamos tempos complicados, em que o reconhecimento, nessa sociedade hipócrita e que celebra valores equivocados, também é baseado em coisas erradas, que não merecem apreciação. Pessoas ganham celebridade e fama, sendo idolatradas na mídia e nas redes sociais, por fatos absolutamente corriqueiros, desprovidos de mérito e até mesmo desprezíveis, nos fazendo questionar onde foi parar o bom senso da humanidade.

Reconhecimento vem de conhecer de novo, acolher em seu íntimo o que é verdadeiro. E é exatamente por isso, que precisa ser resultado da identificação de valores fundamentais, de atitudes nobres e de palavras sábias, postos em prática, no dia a dia. O reconhecimento precisa ser decorrente de algo que impacta positivamente a sociedade.

Recebi muitos elogios em minha trajetória. Trabalho desde os 14 anos, fui muito estudiosa, e obtive êxito em várias coisas difíceis: fiz faculdade federal, passei no concurso para Promotora de Justiça bem jovem, fui professora de Direito Penal e Processual Penal, fiz Mestrado e iniciei um doutorado em Coimbra…
Todas essas conquistas tiveram um sabor especial, porque foram muito suadas e dependeram exclusivamente de mim. Não tive “padrinhos”, na vida ou na carreira, que facilitassem as coisas, e a cada degrau galgado, minha realização aumentava.

Entretanto, dos muitos elogios profissionais que recebi como Promotora, nunca soube, ao certo, se advinham de uma atuação impecável de minha parte, ou da própria aura do cargo. Afinal, sabemos que o mundo funciona assim, e a função traz em si um poder embutido, que atrai pessoas como a luz, às mariposas.
Dessa forma, adotei uma espécie de termômetro, que me permitisse moderar a vaidade e medir se o que eu entregava ao mundo, sob a forma de serviço, me melhorava como ser humano, se eu estaria fazendo a minha parte bem feita. Por meio deste, eu me mantinha com os pés fincados no chão, distinguindo adulação de sinceridade.

Durante muito tempo, ao fazer essa avaliação, eu não me satisfazia. Afinal, não adiantava executar parte das minhas missões adequadamente, e não estar satisfeita comigo na outra ponta. Não resolvia meu problema existencial receber elogios, e não ser a pessoa que eu queria ver do outro lado do espelho. Por mais que saibamos que estamos sempre em construção e aprimoramento, tem que existir o desejo sincero, nesse sentido. Isso precisa ser uma meta. E eu sabia que estava falhando.

Até que vários acontecimentos, no ano de 2019, transformaram a minha vida. Eu já havia conseguido me libertar da compulsão consumista havia anos, mas um vazio insistia em latejar no meu peito, e eu não sabia de onde ele vinha. Resolvi adotar os conselhos de Sócrates, dados há 2500 anos: “conhece-te a ti mesmo”, segundo uma frase inscrita no templo de Delfos, pelo sábio propagada, e fiz um mergulho interior.

Sócrates aconselhava que, nessa busca, dinheiro, fama, riqueza e precisam ser sublimados, para que exsurjam os verdadeiros valores da vida. Trata-se de um movimento muito difícil, até porque vivemos em um mundo que incensa e eleva ao ponto máximo, para medição de sucesso pessoal, todas essas coisas.
No entanto, eu tinha assuntos muito importantes para cuidar e colocar em ordem, e consegui, dentro de minhas limitações e dificuldades, olhar pra dentro de mim, com disposição para mudar e muita vontade de acertar. Sabia que minha mudança impactaria diretamente minha realidade.

Transformei minha vida dedicando-me às tarefas mais básicas do cotidiano e da rotina: passei todo o tempo possível com meus filhos, estudei diariamente, escrevi muito, aprendi demais. Tentei eliminar muitos dos apelos externos que, há tempos, já não faziam sentido para mim, mas que por preguiça ou conformismo, eu continuava acolhendo. Disse muitos NÃOS. Fiquei muito em casa, e isso não teve a ver com a pandemia rs. Fazia parte de um movimento interior.

E, a partir daí, os textos foram brotando. Os artigos foram ganhando forma. Os temas surgiam de modo intuitivo, muitas vezes sequer imaginados antes por mim. E um livro começou a se delinear, ali. Com uma sequência lógica entre os artigos, para que as pessoas acompanhassem o meu pensamento, entendessem a minha mensagem.

Nesse processo de autotransformação e de criação, abdiquei de muitas amizades, as quais não representavam mais as coisas em que acredito. Afinal, se Santo Tomás de Aquino ensinava que amigos são os que amam e repelem as mesmas coisas que nós (idem velle, idem nolle), não dava mais para seguir com as mesmas pessoas, se eu não era mais quem fui antes.

E, inexplicavelmente, como que por mágica, após dedicar-me com afinco à minha vida e aos meus afetos, à busca da verdade e de ensinamentos mais elevados, o vazio que eu sentia desapareceu! Não sentia mais um buraco no peito. Não havia solidão. Não existia angústia, mas sim um prazer enorme em conhecer e descobrir a verdade!

O preenchimento veio, quando foquei no que realmente importava. Sem fugas. Sem compras. Sem prazeres desordenados. Colocar as prioridades da vida em ordem, trouxe uma ordem interna para mim. Escrever foi o modo que encontrei de compartilhar esse processo, e ajudar tantas pessoas a entenderem a crise moral e espiritual que assola a civilização, e como manterem-se relativamente à margem disso.

Por isso, meu artigo fala de reconhecimento. Porque o que eu recebo, hoje, de meus seguidores e leitores, é muito mais do que uma parabenização educada. É a celebração do encontro da minha vocação e da minha verdade, com o anseio dos que querem saber o que eu penso. É a possibilidade de deixar algo para o mundo, de ajudar pessoas servindo, escrevendo. Existem três formas de servir, com trabalho espiritual, físico ou intelectual. É o olhar atento sobre esse serviço que alguém presta, de modo verdadeiro, que significa reconhecimento. O serviço prestado com amor merece ser valorizado.

Hoje, não tenho mais o vazio que me perseguiu por tantos anos. Em seu lugar, tenho uma realização plena de uma vocação, um dom que imerecidamente recebi, mas que agora posso compartilhar com todos. Através do que escrevo, eu sirvo à sociedade. Revelando o melhor e o pior de mim, ensino lições que ainda estou aprendendo, conto a História como ela foi e enalteço a filosofia, chego mais perto de Deus.
Obrigada a todos, por tanto carinho e reconhecimento.

A niteroiense Erika Figueiredo é escritora, promotora de Justiça Criminal, Mestre em Ciências Penais e Criminologia pela UCAM, membro da Escola de Altos Estudos em Ciências Criminais e do MP Pro Sociedade, aluna do Seminário de Filosofia e da Academia da Inteligência. Me siga no Instagram @erikarfig