Seguindo o líder

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Os humanos possuem outra característica, similar à dos animais, que fica bem evidente em momentos de perigo: o agrupamento. Foto: Marcelo Tavares

Sempre adorei filmes de guerra e apocalípticos. São recortes de situações extremas, pelas quais a Humanidade pode passar. Ainda assim, por sermos os únicos seres vivos dotados de inteligência e vontade, nós conseguimos superar, ultrapassar os limites que a realidade nos impõe e reinventar a História.

Os humanos possuem outra característica, similar à dos animais, que fica bem evidente em momentos de perigo: o agrupamento. A fim de fortalecerem-se e encontrarem soluções para as intempéries, no estilo “um por todos e todos por um”, os indivíduos buscam grupos que os abriguem, estabelecendo um comportamento de rebanho.

Ortega y Gasset, em seu livro A Rebelião das Massas, nos traz o seguinte: “As circunstâncias são o dilema, sempre novo, ante o qual temos que nos decidir. Mas o que decide é o nosso caráter. Tudo isso também vale para a vida coletiva. Também nela há, primeiro, um horizonte de possibilidades, e logo, uma resolução que escolhe e decide o modo efetivo da existência coletiva.

E prossegue: “Essa resolução emanará do caráter que a sociedade tiver, ou, o que dá no mesmo, do tipo de homem que for dominante nela. No nosso tempo, domina o homem-massa; é ele quem decide” (…). O homem-massa é o homem cuja vida carece de projetos e anda à deriva. Por isso não constrói nada, ainda que suas possibilidades, seus poderes, sejam enormes. É esse tipo de homem que decide em nosso tempo” ( páginas 118 e 119).

Podemos perceber, de modo claro, que os grupos, na sociedade moderna, tornaram-se a regra. As pessoas unem-se em torno de ideais, planos, projetos, pontos de vista, ideologias, minorias, partidos políticos e tantas outras modalidade de aglutinação social. Através dessas escolhas, nem sempre racionais, passam a conduzir-se na vida, e o que dá a tônica dos grupos é, invariavelmente, o caráter de seu líderes.

Em The Walking Dead, série que já se encontra em sua 11ª temporada, há dois grupos dominantes, que desenvolvem uma dinâmica que reproduz a sociedade moderna. O primeiro deles, capitaneado por Rick – um ex-policial que acorda de um coma, em pleno apocalipse zumbi, e sai em busca de sua família desaparecida – acena com valores como integridade, lealdade, trabalho, respeito, família, religião. Ao redor de Rick ficam pessoas de boa índole, que desejam sobreviver e construir um mundo melhor do que o que ora se impõe.

O segundo grupo é sempre formado por pessoas inescrupulosas, as quais desejam vencer sem muito esforço, à custa do esforço de outros, aos quais subjugam. A personalidade do líder – que já foi representado por Negan, Alfa e outros, ao longo das temporadas, é controvertida, amoral, autoritária, despida de virtudes e altamente violenta.

Por meio da análise dos grupos da série, e da influência que exercem sobre seus integrantes, podemos distinguir o quanto a personalidade e o caráter do líder, conduz os pensamentos e as atitudes dos demais membros, os quais passam a seguir as determinações de seu chefe, sem questionamentos.

E esse é o retrato da realidade. O mundo divide-se entre mocinhos e bandidos, pessoas virtuosas ou vis, as quais vão moldando-se aos comportamentos daqueles que seguem. Mesmo os que desenvolvem-se intelectualmente e observam as armadilhas que os agrupamentos coletivos encerram, sentem-se tentados a eleger uma liderança representativa de seus pensamentos. Somos todos homens-massa.

É o “triunfo das massas e tudo que ele anuncia”, como bem observou Gasset. Não por outra razão, precisamos ser vigilantes com o nosso entorno. É necessário escolher bem amizades, professores, livros, filmes, séries e locais. É por meio da cultura, da educação e do prazer que os hábitos infiltram-se em nossa mente.

Se consumimos porcaria, frequentamos locais insalubres, desenvolvemos hábitos perniciosos e consumimos arte, cultura e ensinamentos de caráter duvidoso ou imoral, em breve nossa vida será a mera repetição desse aprendizado, sem que sequer julguemos sua nocividade. Agiremos por repetição, mimetismo, imitação.

Em The Walking Dead, com seu comportamento de adequação às circunstâncias, coragem e determinação, ética e altruísmo, Rick vai conduzindo seu grupo para o bem, a caridade, a boa convivência e a obstinação, em busca de bons resultados para todos. O exemplo arrasta.

Já Negan e Alfa, símbolos de uma vida predatória, errática, antiética, destrutiva e repleta de vícios, conduzem os membros de seus bandos de modo irracional e violento, tal qual fossem uma matilha. Desejam subjugar e escravizar a turma de Rick. Querem apropriar-se dos bens que as colônias fundadas por Rick produzem. Prendem, açoitam e matam integrantes do próprio grupo e dos demais. Governam pelo medo.

A certa altura, da série ( contém spoiler), Negan é preso por Rick, e passa a conviver com seu grupo, e, embora esteja encerrado em uma cela, vai acompanhando os exemplos que se sucedem, de força de vontade, companheirismo, dedicação e amor ao próximo: Aquele pessoal está unido por um propósito elevado, de reconstrução do mundo perdido, e isso faz toda a diferença.

A partir desse momento, Negan começa um processo de autoanálise e transformação, que ainda não sabemos onde vai dar, pois uma nova temporada da série está por vir.

Logo, o que podemos extrair da observância da civilização e do movimento de manada que tomou conta da modernidade, é o seguinte: agrupar-se não é ruim. Aliás, faz parte da essência do ser humano, que não vive só. Um bebê, se não for cuidado, perece. Uma criança pequena, idem. Um adulto solitário sofrerá as nefastas consequências do isolamento. Entretanto, nada disso dá carta branca a qualquer tipo de associação, que despersonalize o indivíduo e permita-lhe o cometimento de atrocidades.

A vida é feita de escolhas, e é preciso exercitar esse livre arbítrio, ao eleger grupos dos quais se queira fazer parte. É preciso decidir o que se quer seguir, admirar e propagar. É premente saber quem se é, para melhor escolher, sem sofrer influências danosas, que podem ser irreversíveis.

E como eleger as coisas certas? Saber do que se aproximar? Bem, para isso é necessário aperfeiçoar a personalidade, tomar as rédeas do próprio destino, deixar de culpar os demais, assumir responsabilidades e inserir-se plenamente na própria vida.

Somente por meio dessas atitudes, modulando sua vontade e elevando-se como pessoa, será possível associar-se a grupos que amem e rejeitem as mesmas coisas que você, sem tornar-se massa de manobra. Com a personalidade amadurecida e a vida ordenada, sua escolha virá por afinidade, e não por medo, solidão, carência ou autoafirmação.

Nesse contexto, uma vida em coletividade pode ser maravilhosa, incentivando a evolução dos indivíduos e a descoberta do sentido de suas vidas. Finalizando com Ortega y Gasset: “Circunstância e decisão são os dois elementos radicais de que se compõe a vida”.