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Na semana passada, falei sobre
a série The Walking Dead. Como a temporada 11 teve
novos capítulos adicionados, e como sou absolutamente viciada nessa
saga de sobreviventes ao apocalipse, lá vou eu, de novo, traçar um
paralelo da narrativa, com a realidade. CONTÉM SPOILER.
Os
personagens de TWD estão exaustos. Perderam sua comunidade,
Alexandria. Outras duas comunidades, Hilltop e Oceanside, também
foram devastadas. Pouco sobrou para eles, que vagam por florestas e
terrenos áridos, matando zumbis, procurando comida e tentando, como
podem, preservar suas vidas.
A
vida é cruel, o mundo tornou-se um lugar muito perigoso, e por
incrível que pareça, piores do que os zumbis, são algumas pessoas,
que aproveitam-se da escassez, do medo e da precariedade da vida
humana para conseguirem vantagens e poder.
Alguns
dos personagens, dentre estes Eugene, são atraídos para um
comunidade denominada Commonwealth, que parece, á primeira vista, um
oásis no deserto. Ali, a vida de antes do apocalipse zumbi é
recriada, e 50 mil pessoas vivem sob intensa vigilância, entremuros,
governadas pela mão de ferro de Pamela Wilson.
Todos
trabalham, conforme suas habilidades, havendo comida, moradia, escola
e proteção para todos. Porém, o preço a se pagar é muito alto.
Não existe liberdade de expressão. O poder está concentrado nas
mãos de poucos. O dinheiro é escasso. Cada cidadão é
ostensivamente vigiado.
Maggie,
uma das personagens principais da trama de TWD, desde o início
recusa-se a ir para Commonwealth. Prefere manter-se em um
acampamento, dentro dos muros de sua antiga comunidade, Hilltop,
apesar dos apelos de vários amigos e até mesmo dos dirigentes da
referida comunidade, para que se mude para lá, mesmo que
temporariamente.
Por
ser uma sobrevivente, tendo construído do nada uma cidade próspera
e autossustentável (apesar de, momentaneamente, devastada, por
grupos de sobreviventes inimigos), sabe que o preço a se pagar, ao
abrir mão da própria liberdade, em troca de uma suposta segurança,
é muito alto, preferindo manter-se ali, em meio a imensas
dificuldades, a sucumbir aos pedidos. Sábia.
Aos
poucos, os dirigentes da Commonwealth começam a mostrar suas
verdadeiras personalidades e seus objetivos escusos. Manipulam a
população. Roubam. Brigam por poder. Forjam situações, notícias
e até prêmios de loteria. Oferecem pão e circo ao povo, para que
este, entretido, não perceba o que está, de fato, acontecendo.
A
face do totalitarismo vai se delineando, deixando claro algo que as
pessoas já deveriam ter aprendido: na vida, não existe almoço
grátis. O que quer que lhe seja fornecido, por pessoas sem
escrúpulos, lhe será cobrado, de um jeito ou de outro, quando você
menos esperar. E a turma de Commonwealth sabe fazer isso.
Maggie
conta um episódio de sua vida, a alguns amigos, alertando sobre o
que acontece, quando acreditamos, ingenuamente, em propostas gentis,
de gente sem caráter: Seu pai possuía uma fazenda, produtiva e
próspera. Entretanto, uma longa seca abateu-se sobre a localidade,
e, sem conseguir plantar e colher, ou mesmo alimentar o gado, o homem
endividou-se, a fim de manter sua propriedade funcionando.
Incorporadores
inescrupulosos, sabendo de tal situação, fizeram uma oferta pela
fazenda, bem abaixo do valor de mercado. Como o pai de Maggie recusou
a proposta, subiram o valor, e passaram a deixar alimentos e
combustível na porta da propriedade, a fim de convencerem a família.
O
pai de Maggie não vendeu suas terras, tampouco tocou nos mantimentos
que foram deixados à sua porta. Embora todos estivessem famintos e
necessitados, ele percebia, com clareza, que nenhum destes atos era
fruto de caridade ou bondade, mas apenas faziam parte de um jogo, do
qual ele sempre sairia perdendo.
Pediu
à família que aguentassem firme, pois a seca terminaria, a terra
voltaria a ser fértil, e o gado sobreviveria. E foi exatamente o que
aconteceu. Todos ficaram bem, nenhuma vaca morreu, e a fazenda
permaneceu com a família, até o apocalipse ocorrer.
Falsas promessas
Essa
é uma grande lição, que devemos seguir, em tempos difíceis. Não
acreditar em falsas promessas, gente desonesta e com sede de poder.
Não nos iludirmos com aparências e cargos, postos de destaque e
narrativas falsas: tudo isso é passageiro e, normalmente, o preço a
ser pago é a nossa dignidade, a nossa despersonalização, a perda
de nossa identidade pessoal.
Vivermos
de acordo com a nossa realidade e acreditando em nossa intuição e
nos valores que nos foram passados, é um bom começo. Querer ser
quem não ´se é, ou ter o que não se tem condições, para
impressionar a alguns, é uma grande bobagem, e deixa-nos
completamente perdidos e desorientados, inaptos à tomada de decisões
acertadas.
No
jogo de ilusões em que nos encontramos, é necessário sabermos
separar as pessoas por caráter, a fim de que, lá na frente, não
tenhamos que acertar as contas, com gente que não tem nada a perder.
Tudo que nos for dado, nos será cobrado, na mais justa medida de
quem nos deu. Portanto, que façamos acordos com gente correta, e que
cobra o preço certo a ser pago.
À
primeira vista, as facilidades podem cegar-nos. O povo de Hilltop,
liderado por Maggie, está faminto, sedento, desprotegido e sem teto.
Estão alimentando-se da carne tostada dos cavalos, que não
resistem, e vão morrendo, um a um. No entanto, possuem liberdade de
escolha e de viver como desejam, e disso, não abrem mão.
Apesar
de todas as inúmeras dificuldades momentâneas, a verdade é sempre
o melhor caminho. O caminho do bem costuma mesmo ser o mais tortuoso.
A virtude é algo difícil de se obter, é preciso lutar por esta.
Por isso, gente de bem costuma sofrer mais e ser mais testada, no
início. A boa notícia é que, com o tempo, vai ficando mais fácil.
A
trajetória de Maggie e sua turma contém muitas lições, com as
quais podemos aprender. Os donos da bola, no time da Commonwealth,
fazem qualquer coisa para manterem-se no topo da pirâmide. Inclusive
matar. Ali, não há alternância de poder, conforme exige a
democracia, tampouco lucro por mérito e por trabalho. O que há é
toda uma comunidade, que em troca de comida, casa, divertimento e
segurança, submete-se a qualquer coisa.
AO
QUE VOCÊ ESTÁ DISPOSTO A SE SUBMETER?