A possibilidade de fabricar armas de fogo em casa, com o uso de impressoras 3D e um custo estimado em cerca de R$ 800, foi um dos aspectos que mais preocupou as autoridades ao apresentar os resultados da Operação Shadowgun. A investigação apura um esquema de desenvolvimento e comercialização, pela internet, de peças e projetos digitais usados na montagem de armamentos.
Segundo os investigadores, o baixo custo e a facilidade de produção aumentam o risco de disseminação das chamadas “armas fantasma”, que não possuem numeração e são difíceis de rastrear. Um exemplar desse tipo já havia sido apreendido no ano passado em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio, com um criminoso ligado ao tráfico, de acordo com as autoridades.
Ainda de acordo com os investigadores, a fabricação de um armamento desse tipo pode custar cerca de R$ 800, utilizando uma impressora 3D de baixo custo e materiais acessíveis.
“Essa facilidade de produção e circulação, por meio de um simples projeto digital e de uma impressora 3D, é algo extremamente preocupante”, afirmou o procurador-geral de Justiça do Rio, Antonio José Campos Moreira, durante entrevista coletiva nesta quinta-feira (12).
A operação foi realizada em conjunto pelo Ministério Público do Rio (MPRJ), pela Polícia Civil e pelo Ministério da Justiça. Ao todo, foram cumpridos 36 mandados de busca e apreensão em 11 estados. No Rio de Janeiro, agentes estiveram em endereços na capital, na Região dos Lagos e no Norte Fluminense.
Durante as diligências, policiais apreenderam impressoras 3D, armas artesanais, munições e acessórios usados na fabricação das peças. Três pessoas foram presas por mandados judiciais e outras duas acabaram detidas em flagrante com material ilegal. Dois investigados ainda são considerados foragidos.
Impressão doméstica
De acordo com as investigações, o grupo atuava no desenvolvimento de projetos digitais que permitiam a fabricação de armamentos em casa. Os arquivos eram compartilhados na internet com instruções detalhadas para montagem e suporte técnico para compradores.
“Em 2024, um indivíduo escondido pelo pseudônimo de Zé Carioca desenvolveu uma nova carabina, que ele denominou de Urutau, que pode ser integralmente fabricada por uma impressora 3D, com conhecimento básico de engenharia metalúrgica”, explicou o delegado Marcos Buss, titular da 32ª DP (Taquara).
Segundo o delegado, o próprio criador do projeto também orientava compradores sobre como produzir partes metálicas da arma.
“Esse indivíduo fornece uma consultoria para quem o procura. Ele desenvolveu um processo de metalurgia denominado eletroerosão, um processo simplificado que permite que dentro da própria casa seja possível montar um cano raiado”, disse Buss.
Venda pela internet
A coordenadora do núcleo especializado do Ministério Público, Letícia Emile, afirmou que a investigação identificou a venda de peças e acessórios de armas por meio de plataformas digitais de comércio eletrônico.

Após a descoberta das vendas ilegais, algumas contas foram bloqueadas, mas parte da atividade teria migrado para ambientes mais restritos da internet, como a deep web.
“Há uma preocupação especial com o potencial acesso desse tipo de conteúdo por adolescentes e por pessoas sem qualquer controle estatal sobre a circulação de armas”, afirmou.
Segundo ela, alguns compradores identificados já tinham antecedentes por crimes como tráfico de drogas, milícia e homicídio.
Cooperação internacional
As autoridades explicaram que a investigação começou após o compartilhamento de informações por um órgão internacional de inteligência e pela Secretaria Nacional de Segurança Pública.
“O crime hoje não é mais local: ele é interestadual e muitas vezes transnacional. Por isso, é fundamental que haja integração entre as instituições”, afirmou o procurador-geral Antonio José Campos Moreira.
Também participaram da coletiva o secretário de Polícia Civil do Rio, Felipe Curi, e o diretor de Operações Integradas e Inteligência da Secretaria Nacional de Segurança Pública, Anchieta Nery, que destacaram que o material apreendido será analisado para identificar novos envolvidos e possíveis compradores.
Os denunciados podem responder na Justiça por organização criminosa, lavagem de dinheiro e comércio ilegal de armas.