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Paulo Peçanha - Mais Leve

Bactérias contra a ansiedade? O que a ciência realmente descobriu sobre os psicobióticos

Paulo Peçanha | Publicado em:

Cérebro e intestino sobre a ansiedade
Cérebro e intestino estão em constante comunicação por meio do chamado eixo intestino-cérebro. Arte / Divulgação

Imagine que seu cérebro e seu intestino sejam dois vizinhos que conversam o dia inteiro. Uma situação de estresse pode acelerar o intestino. Uma alteração intestinal pode, por sua vez, enviar sinais de volta ao cérebro. No meio dessa conversa vivem trilhões de microrganismos. E é justamente aí que uma área relativamente nova da ciência começou a chamar atenção: a possibilidade de algumas bactérias influenciarem também a nossa saúde mental.

Os chamados psicobióticos estão colocando o intestino no centro de uma conversa que, até pouco tempo atrás, parecia pertencer apenas ao campo da digestão. São microrganismos capazes de participar da comunicação entre intestino e cérebro e, em algumas circunstâncias, podem influenciar processos ligados ao humor, ao estresse e à ansiedade. Neste artigo, vamos entender de que maneira eles podem ajudar no controle da ansiedade.

O que são os psicobióticos?

A ideia é mais simples do que o nome parece. Probióticos são microrganismos vivos que, quando administrados em quantidade adequada, demonstraram produzir benefícios à saúde. Já o termo psicobiótico é usado para probióticos que podem influenciar funções relacionadas ao cérebro e à saúde mental. Lactobacillus e Bifidobacterium estão entre os grupos mais estudados.

Mas existe um detalhe importante: nem todo Lactobacillus é igual. Bactérias diferentes podem produzir efeitos diferentes. Por isso, não basta comprar qualquer produto que diga “probiótico para ansiedade”.

A relação entre o intestino e a ansiedade

Intestino e cérebro estão em constante comunicação por meio do chamado eixo intestino-cérebro. Essa conversa acontece por diferentes caminhos, que envolvem o sistema nervoso, hormônios, células de defesa e substâncias produzidas pelas bactérias da microbiota. É por isso que uma situação de tensão pode causar aquele famoso “frio na barriga”, acelerar o intestino ou até provocar enjoo. O caminho inverso também existe: alterações no ambiente intestinal podem enviar sinais ao cérebro e influenciar processos relacionados ao estresse e ao humor.

É justamente nessa comunicação que os psicobióticos despertam interesse. Algumas bactérias podem produzir substâncias capazes de participar dessa conversa ou modificar respostas do sistema imunológico e do sistema nervoso. Estudos também encontram diferenças na microbiota de pessoas com ansiedade e outros transtornos mentais. Mas isso ainda não permite dizer que uma microbiota alterada seja a causa da ansiedade. O que a ciência investiga agora é se podemos usar a microbiota como uma das peças para ajudar a controlar esses sintomas.

Como uma bactéria no intestino poderia influenciar o cérebro?

Existem diferentes caminhos possíveis. Algumas bactérias produzem moléculas que participam da comunicação entre intestino e cérebro, enquanto outras podem influenciar o sistema imunológico. A alimentação também entra nessa equação: fibras e outros componentes chegam ao intestino e são utilizados por microrganismos que produzem substâncias, como os ácidos graxos de cadeia curta.

Mas existe um mito que precisa ser esclarecido: o fato de grande parte da serotonina do organismo ser produzida no intestino não significa que comer uma bactéria produtora de serotonina aumentará diretamente a serotonina do cérebro. A comunicação entre intestino e cérebro é real, mas não funciona como uma linha direta. É justamente por isso que os pesquisadores ainda investigam quais mecanismos podem explicar os possíveis efeitos dos psicobióticos sobre ansiedade e outras funções cerebrais.

A aposta da ciência para os psicobióticos e a saúde mental

Os psicobióticos ainda não são uma solução pronta para tratar ansiedade, mas estão entre as estratégias que mais despertam interesse na pesquisa sobre a conexão entre intestino e cérebro. Uma meta-análise publicada em 2025 reuniu 23 ensaios clínicos, com 1.401 pessoas diagnosticadas com transtornos psiquiátricos, e encontrou uma redução moderada nos sintomas de ansiedade entre os participantes que utilizaram probióticos.

O resultado é promissor, mas precisa ser interpretado com cuidado. Os estudos utilizaram diferentes bactérias, doses e períodos de tratamento, e os resultados ainda apresentam bastante variação. Por enquanto, a aposta da ciência não é substituir psicoterapia ou medicamentos por uma cápsula de bactérias, mas descobrir se determinadas cepas podem se tornar uma ferramenta complementar no cuidado da saúde mental. É uma área promissora, mas ainda em construção.

O que vai no prato também conversa com o cérebro

Se a microbiota participa da comunicação entre intestino e cérebro, a alimentação acaba entrando nessa conversa. Fibras presentes em frutas, verduras, legumes, feijão, aveia e outros alimentos vegetais servem de alimento para diferentes microrganismos intestinais, que produzem substâncias capazes de participar de processos ligados ao metabolismo, à imunidade e à comunicação com o sistema nervoso. Por isso, antes de pensar em uma cápsula, vale cuidar do ambiente onde essas bactérias vivem. Uma alimentação variada e rica em alimentos minimamente processados pode favorecer uma microbiota mais diversa e saudável, embora isso não signifique que determinada dieta ou alimento seja capaz de tratar a ansiedade sozinho.

Os psicobióticos entram como uma possível ferramenta complementar. Alguns estudos sugerem que determinadas cepas de probióticos podem reduzir sintomas de ansiedade, mas os resultados variam conforme o microrganismo, a dose e o perfil da pessoa. Isso significa que não basta procurar no rótulo a palavra “Lactobacillus” ou “Bifidobacterium” e esperar o mesmo efeito. A ciência está tentando descobrir quais microrganismos realmente funcionam, para quem e em quais condições. Enquanto essas respostas não chegam, cuidar da alimentação, do sono, da atividade física e da saúde mental continua sendo uma estratégia muito mais sólida do que apostar todas as fichas em uma cápsula.

O intestino também faz parte dessa conversa

A ciência ainda está descobrindo até onde vai a influência da microbiota sobre a ansiedade. Os psicobióticos são uma possibilidade promissora, mas não uma solução mágica. Enquanto a pesquisa avança, o caminho mais seguro continua sendo cuidar do conjunto: alimentação variada, consumo adequado de fibras, sono de qualidade, atividade física e atenção à saúde mental.

Se você enfrenta ansiedade frequente ou está pensando em usar probióticos com esse objetivo, procure orientação de profissionais competentes, como nutricionista e médico, que poderão avaliar suas necessidades e indicar a estratégia mais adequada”, — Paulo Peçanha, nutricionista preparador físico.

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