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Mortandade de peixes dispara em Maricá e desespera comunidade pesqueira

Publicado às 19h47 / Atualizado às 21h54

Imagem ilustrativa da imagem Mortandade de peixes dispara em Maricá e desespera comunidade pesqueira
Pescadores da Lagoa de Jacaroá temem desaparecimento de peixes. Foto: Vítor Soares

A mortandade de peixes ocorrida no último sábado (4) na  Lagoa de Jacaroá, e também no canal de Ponta Negra, em Maricá, colocou a comunidade pesqueira em alerta. Nesta quarta-feira (8), pescadores ficaram apreensivos e muitos preocupados sem saber o que fazer com o desaparecimento quase total dos peixes. 

Pescador e morador de Ponta Negra há mais de 25 anos, Gilson Casemiro Pinheiro afirma que a situação é preocupante e jamais vista no local. 

"Hoje era para estar cheio de gente aqui pescando e não tem praticamente ninguém. Não sabemos o que vamos fazer daqui para frente, pois a pesca é o nosso modo de sustento. Se não tem peixe, como que a gente vai levar comida para casa?" 

Valdir Ferreira Pacheco, que é presidente da Associação de Pescadores de Ponta Negra, disse que na última segunda-feira (6), a Secretaria de Agricultura e Pesca procurou a comunidade pesqueira. 

"O que aconteceu é muito intrigante. Teve pescador que saiu da água às 4h e não tinha nada. Quando foi por volta das 6h, foi aquela enxurrada de peixes mortos. Dava pena ver os bichos de tudo quanto era tipo se batendo. Precisamos de uma resposta o quanto antes para saber de fato o que está acontecendo. Do jeito que está, não podemos ficar" 

Mortandade de peixes

O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) informou em nota que uma vistoria será feita no local para verificar a causa mais provável da mortandade. O órgão, no entanto, não informou quando isso será feito.  

A presidente da colônia de pescadores Z7, Lidiane Vieira, afirmou que tomou conhecimento da mortandade e aguarda a resposta das autoridades competentes. 

"Os pescadores precisam dessa resposta, porque eles estão sendo muito prejudicados, pois dependem da Lagoa para sobreviver e ter a sua renda. Eles ficam sem saber como será daqui para frente", questionou. 

Lagoa de Maricá, Pescador
Pescador na Barra de Maricá lança sem a rede sem esperanças de pesca por conta da mortandade. Foto: Vítor Soares

Barra de Maricá

Apesar do problema ter ocorrido na Lagoa de Jacoroá, pescadores na Barra de Maricá, também já se mostram preocupados com o acontecido.

Orlando José Cardoso, que apesar de não trabalhar com a atividade pesqueira, pesca há mais de 20 anos e teme que o ocorrido em Maricá possa acontecer também em outras lagoas do município.

"Fico pensando nas pessoas que precisam trabalhar. A lagoa precisa de uma atenção especial e estamos contando que algo seja feito"

Causas

Marcelo Melo, professor no curso Oceanografia Biológica do Instituto Oceanográfico, Universidade de São Paulo (IO-USP), explica que a mortandade de peixes pode ter ocorrido pela falta de oxigenação na água da lagoa.

 "Isso pode ter sido provocado por vários fatores. Sobretudo, quando o fluxo hídrico entre o mar e a lagoa é interrompido e o nível de oxigênio reduz. Com os índices de contaminação a uma proliferação de organismos unicelulares (geralmente algas cianobactérias) que consomem o oxigênio da água, isso faz com que outros seres vivos, como o peixes, crustáceos, moluscos entre outros podem morrer por asfixia" 

O especialista esclarece ainda que algumas vezes, a própria água do mar que entra na lagoa, se estiver muito contaminada, pode contribuir para a proliferação destas cianobactérias.

Já Rodrigo Leão, biólogo e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), atenta que a mortandade de peixes é reflexo da saúde ambiental dos sistemas lagunares do Rio de Janeiro, inclusive em Maricá.

"Com a ocupação desordenada do território, esses eventos tendem a se repetir e se agravar cada vez mais. Não acho plausível supor que tenha sido algum veneno ou produto químico. O que aconteceu foi bem característico de falta de oxigênio. E aí, o suspeito número um é o esgoto. Precisamos que as autoridades se atentem para estas situações crônicas. O meio ambiente precisa ser cuidado em todas as esferas municipais, estaduais e federais, tamanha magnitude dos problemas ambientais"

Fenômeno recorrente

Pelas redes sociais, a Prefeitura de Maricá justificou que o fenômeno tem sido comum e recorrente ao longo dos últimos anos.

Ainda de acordo com a prefeitura que apesar de ter assumido a gestão das águas das lagoas locais, acionou o Inea com o objetivo de apurar as causas do episódio e para a realizar estudos com análise da água da região para que se avalie a causa do dano ambiental registrado.

Ainda segundo a administração de Fabiano Horta, na última semana foram iniciadas ações de revitalização das águas, que segundo a prefeitura, levarão a uma maior oxigenação do ecossistema e preservação da vida na lagoa.

O programa Lagoa Viva, parceria com pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) com a prefeitura, fez uma demonstração na lagoa de Itapeba, e terá início efetivo d ações no dia 27 de setembro, quando acontece o fenômeno da Maré de Sizigia, momento propício para o início do processo.

Pescadores

Apesar do pescador Manoel da Silva Peçanha ter contado que chegou a comer peixes que foram encontrados mortos ou agonizando, o biólogo Rodrigo Leão orienta que o consumo não é recomendado. 

"O pescado já pode estar nas fases iniciais da decomposição, podendo gerar problemas de saúde. No caso da mortandade ter sido ocasionada por florações de algas tóxicas, que também ocorrem quando há excesso de nutrientes na água, as toxinas podem causar efeitos neurológicos graves", finalizou.

A Coordenação de Vigilância em Saúde de Maricá informou e tranquiliza a população da cidade que não houve nenhum registro de atendimento nem de hospitalização de pessoas nas unidades de saúde municipais relacionado à suposta ingestão de peixes mortos.

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