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Segurança Pública

Agressão em creche de SG: mães denunciam que pertences dos filhos foram jogados no lixo

Tayná Ferreira | Publicado em: - Atualizado 4 meses atrás

Foto: Via Grupo Enfoco

O caso das denúncias de maus-tratos contra crianças na Creche Cantinho do Céu, localizada no bairro Pacheco, em São Gonçalo, ganhou um novo capítulo. Mães de alunos afirmam que pertences das crianças que estavam na unidade foram descartados, jogados no lixo e expostos à chuva sem qualquer aviso prévio aos responsáveis para que pudessem retirá-los. Os pertences permaneciam na creche desde que vieram à tona as denúncias de agressões sofridas por diversas crianças, supostamente praticadas por funcionárias da unidade.

De acordo com a monitora de transporte escolar Rayssa Catarina do Nascimento, mãe de uma das crianças agredidas, imagens mostrando os pertences descartados foram compartilhadas no grupo de responsáveis no último dia 4 de junho. Nos registros, roupas, brinquedos e outros objetos aparecem acondicionados em sacos de lixo deixados na calçada em frente ao imóvel onde funcionava a creche.

“O proprietário do imóvel, que era alugado, jogou as coisas fora, entendeu? Provavelmente ele deve ter avisado a dona da creche para retirar os pertences, e ela autorizou que jogassem fora o que estivesse lá, porque ele precisava limpar o local para alugá-lo novamente. Aí tudo dos nossos filhos foi jogado fora: carrinho de bebê, roupas e os objetos que ficavam na creche durante a semana e que a gente só buscava na sexta-feira. As coisas deles foram parar no lixo, na chuva”, relatou Rayssa.

A mãe também afirma que os familiares tentaram diversas vezes recuperar os pertences das crianças antes do descarte. Segundo ela, mensagens foram enviadas à direção e à coordenação da creche ao longo de todo o mês passado.

“A gente passou o mês inteiro mandando mensagem para ela e para a coordenadora, pedindo que abrissem a escola para que pudéssemos pegar as coisas das crianças que ficaram lá. Mas ninguém respondeu. Ela simplesmente não responde mais às nossas mensagens”, afirmou.

Segundo os demais responsáveis, muitas crianças passavam praticamente o dia inteiro na unidade, chegando ainda pela manhã e retornando para casa apenas no início da noite. Por isso, mantinham roupas e outros pertences na creche.

Além disso, pais relatam que pagavam mensalidades entre R$ 400 e R$ 450 e denunciam que efetuaram o pagamento referente ao mês de maio, mas não foram ressarcidos após o encerramento das atividades da creche.

“Ela [a dona da creche] disse que devolveria o dinheiro que pagamos de mensalidade para que pudéssemos matricular as crianças em outras creches”, afirmou Rayssa Catarina.

O ENFOCO procurou a responsável pela creche para que se posicionasse, mas, até o momento da publicação desta matéria, ela não respondeu à nossa equipe.

Filho sem vaga em escola e sem acompanhamento psicológico

Rayssa ainda afirma que o filho enfrenta dificuldades após o episódio. A monitora relata que a criança está sem estudar e sem apoio psicológico. Ela conseguiu realizar a pré-matrícula do filho no dia 27 de maio.

“Meu filho, que aparece sendo sufocado na filmagem, está até agora em casa sem apoio psicológico. Eu fui ao Conselho Tutelar e já dei entrada. Está na fila de espera e, até agora, não recebeu nenhum tipo de amparo. Coloquei ele na Secretaria de Educação para uma outra creche municipal. Ele não entrou, está em casa sem apoio psicológico, sem amparo escolar, entendeu?”

A mãe também afirma que a ausência de uma nova vaga escolar tem agravado a situação da família. Ela relata dificuldades para encontrar uma instituição capaz de atender às necessidades do filho e diz que a falta de assistência tem impactado sua rotina de trabalho.

“É um descaso, e eu preciso trabalhar. A pessoa que está cuidando do meu filho só pode ficar até este mês. Eu preciso de vaga em outro lugar para colocar o meu filho e eu não estou conseguindo. As escolas particulares não têm vaga para o meu filho porque não têm mediadora, porque ele é uma criança atípica e precisa de uma auxiliar com ele, entendeu? E a situação toda é essa.”

O que dizem Educação e Conselho Tutelar

Por meio da Secretaria Municipal de Educação, a Prefeitura de São Gonçalo informou que as matrículas para as vagas remanescentes da rede municipal continuam abertas e que, caso ainda haja vagas na unidade desejada, a disponibilização é imediata. Em caso de não haver vagas neste momento, o aluno precisa aguardar. A Secretaria ressalta que não há preferência na disponibilização das vagas, que são distribuídas por ordem de solicitação realizada pelo site.

Em nota, o Conselho Tutelar de São Gonçalo informou que “a medida adotada pelo Conselho foi a requisição de serviços, solicitando vaga para as crianças na Secretaria de Educação. Após essa etapa, foi orientado que a Defensoria Pública poderia ser acionada”.

Em relação ao acompanhamento psicológico, o Conselho Tutelar afirmou que: “No que se refere ao encaminhamento psicológico, assistencial e outros, as crianças foram direcionadas para o NACA – Núcleo de Atenção à Criança e ao Adolescente, que realiza acompanhamento desse público em contexto de violência. Cabe ressaltar que o Conselho encaminhou os casos para a rede de proteção social e requisitou informações dos equipamentos. Importante pontuar que ainda estamos nos primeiros dias após as intervenções do Conselho. Seguiremos acompanhando e auxiliando as famílias”, diz a nota.

Situação atual da creche

No dia 18 de maio, a Prefeitura de São Gonçalo destacou que a creche funcionava de forma irregular e sem qualquer autorização para atuar na educação infantil. O caso é acompanhado pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ).

Na ocasião, a administração municipal foi direta ao classificar a unidade como uma atividade clandestina.

“A Prefeitura informa que o local não possui alvará de funcionamento para atividade de creche ou ensino infantil, tratando-se de estabelecimento clandestino, sem o devido licenciamento sanitário, educacional e de posturas, em total desacordo com a legislação municipal”, diz o comunicado.

Segundo o município, equipes da Subsecretaria de Fiscalização de Posturas e da Vigilância Sanitária estiveram no endereço em apoio a policiais da 74ª DP (Alcântara). O imóvel, no entanto, estava fechado no momento da vistoria.

A gestão municipal também destacou a ausência de autorização do Conselho Municipal de Educação (CME).

“A Prefeitura informa que a creche também não tem autorização do Conselho Municipal de Educação (CME) para funcionar e que membros do Conselho foram até o local, mas não foram atendidos, deixando uma notificação”, afirmou.

Questionada pela equipe do ENFOCO sobre eventual resposta da responsável à notificação, a Prefeitura informou que, mesmo após o recebimento do documento emitido pelo Conselho Municipal de Educação, a unidade não buscou a regularização.

“O CME orientou os responsáveis pelos alunos a procurarem unidades de ensino regularizadas e com parecer favorável de autorização de funcionamento. Os responsáveis registraram boletim de ocorrência”, informou a Prefeitura.

Como está a investigação

De acordo com a Polícia Civil, a investigação está em andamento na 74ª DP (Alcântara). Testemunhas são ouvidas e outras diligências estão em andamento para apurar todos os fatos.

Relembre as denúncias de agressão

No dia 17 de maio, mães afirmaram ao ENFOCO que os filhos passaram a apresentar medo de frequentar o local, mudanças bruscas de comportamento e até marcas pelo corpo. Parte das acusações veio à tona após testemunhas decidirem relatar o que diziam presenciar diariamente dentro da creche.

O que antes era interpretado como dificuldade de adaptação à rotina escolar se transformou em sinal de alerta depois que vídeos, áudios e relatos começaram a circular entre as famílias de alunos da unidade. As denúncias envolvem agressões físicas, humilhações, falta de estrutura e condições consideradas precárias dentro da creche particular.

Conversas obtidas pela reportagem mostram relatos de tapas na cabeça, puxões de cabelo, crianças colocadas de castigo e situações de negligência.

“Meu filho começou a chorar sempre que eu o deixava lá. Eu achava estranho, mas nunca imaginei que pudesse estar acontecendo uma coisa dessa gravidade”, contou uma mãe. Segundo ela, um dos filhos chegou em casa dizendo que uma “tia puxou a orelha” dele e bateu no irmão mais novo.

Em uma troca de mensagens, uma testemunha relata ter ficado nervosa após ver uma criança levar “duas chineladas na cabeça”. Em seguida, afirma que outra criança teria sido puxada pelas tranças do cabelo.

Outra mãe relatou ainda suspeitas de que o filho pudesse ter recebido algum tipo de medicação sem autorização. Segundo ela, o menino parecia sem forças para ficar em pé. O caso aumentou a preocupação da família porque, de acordo com o relato, outra criança da creche fazia uso de medicação controlada.

“Meu filho nunca acorda daquele jeito. Em casa, ele sempre levanta sorrindo. Naquele dia, estava mole, sem reação”, afirmou.

Entre os vídeos obtidos pelas famílias está um que mostra o filho de Rayssa recebendo um tapa na cabeça. Em outro registro, uma criança aparece sendo sufocada com um travesseiro. As famílias afirmam que começaram a trocar informações após os vídeos chegarem aos grupos de responsáveis.

Uma das mães disse que o comportamento do filho mudou completamente depois da saída de uma funcionária pela qual a criança tinha forte apego dentro da creche. Segundo ela, foi a partir das conversas com testemunhas que passou a desconfiar do que acontecia no local.

“A revolta foi crescendo porque a gente começou a entender o motivo das mudanças no comportamento das crianças”, disse.

Unidade sem estrutura

Antigos funcionários descreveram o local um ambiente sem estrutura adequada para receber crianças pequenas. Segundo eles, faltavam colchões para descanso, brinquedos e itens básicos de higiene.

Uma testemunha contou ao site detalhes do que afirma ter encontrado ao chegar à unidade. Ela disse ter ficado chocada com a situação do imóvel e relatou que o espaço causava desconforto até mesmo nos adultos. Segundo o relato, crianças dormiam em lençóis improvisados no chão e bebês não tinham colchões adequados para descansar.

“Eu olhava aquilo e pensava nas crianças. Não tinha brinquedo, não tinha conforto, não tinha quase nada. Parecia um lugar abandonado”, afirmou.

Ainda de acordo com o depoimento, havia momentos em que utensílios da cozinha precisavam ser lavados com sabonete líquido e shampoo infantil devido à falta de detergente. A testemunha também descreveu o acúmulo de sujeira no local e afirmou que tentou alertar a direção sobre os problemas.

“Eu discutia porque achava errado. Não conseguia fingir que estava tudo normal”, disse.

Tayná Ferreira

Apaixonada por contar histórias. Atua principalmente em segurança pública e cidades, com interesse em diferentes editorias. Estudante de Libras e apaixonada pelos animais. Instagram: @taynafjornalismo

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