Publicado na Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, o estudo sistematiza experiências financiadas em 2022, quando 15 projetos foram selecionados entre 138 propostas de organizações da sociedade civil. Cada iniciativa recebeu apoio para desenvolver ações ao longo de oito meses, com foco em comunicação em saúde adaptada às realidades locais.
Coordenada pelos pesquisadores Fernanda Marques, Mariella Oliveira-Costa e Wagner Vasconcelos, a pesquisa destaca que a comunicação comunitária vai além da simples transmissão de informações. Trata-se de um modelo participativo, em que moradores atuam como protagonistas na produção e disseminação de conteúdos.
As iniciativas abordaram temas como vacinação, combate à desinformação, saúde mental, segurança alimentar e geração de renda. Todas utilizaram tecnologias de comunicação e fortaleceram redes locais, priorizando fontes da própria comunidade.
Esse formato favorece uma comunicação mais horizontal, baseada no diálogo e na troca de saberes, o que aumenta a confiança nas informações e a adesão às orientações sanitárias.
Durante a pandemia, o grande volume de informações, muitas vezes contraditórias, gerou insegurança e abriu espaço para a circulação de fake news. Nesse cenário, a comunicação comunitária teve papel estratégico ao traduzir conteúdos técnicos para uma linguagem acessível.
“Quando a comunicação fala a língua das comunidades, ela se torna mais eficaz”, destacam os pesquisadores. Segundo eles, comunicadores locais conseguem identificar dúvidas específicas e adaptar mensagens à realidade cultural e social de cada território.
Essa proximidade também ajudou a combater informações falsas sobre tratamentos e medidas de prevenção, além de reduzir o impacto do pânico e da desinformação.
Além do financiamento, os projetos contaram com oficinas de capacitação e assessoria sociotécnica especializada. As atividades promoveram troca de experiências entre grupos de diferentes regiões e contribuíram para a formação de uma rede nacional de comunicação comunitária em saúde.
Esse intercâmbio ampliou o repertório de estratégias e fortaleceu a articulação entre instituições e comunidades, criando bases para atuação em futuras emergências sanitárias.
O estudo aponta que a comunicação comunitária é fundamental para garantir que políticas públicas de saúde cheguem efetivamente à população. Em vez de substituir os meios tradicionais, ela atua como complemento, reforçando mensagens divulgadas por canais como TV, rádio e internet.
A atuação de comunicadores populares também contribui para aumentar a confiança nas orientações oficiais, especialmente em contextos de vulnerabilidade social.
Apesar dos avanços, a pesquisa identificou desafios importantes, como a falta de avaliações estruturadas em alguns projetos e limitações na replicação das iniciativas. Entre as recomendações estão:
- Garantir financiamento contínuo
- Investir em formação permanente
- Fortalecer a autonomia dos coletivos
- Ampliar a avaliação com participação das comunidades
Os pesquisadores também defendem maior valorização da comunicação comunitária e sua integração nas estratégias institucionais de saúde.
A pandemia deixou um aprendizado claro: a comunicação em saúde precisa ser contínua, participativa e conectada às realidades locais. Estratégias baseadas apenas em campanhas massivas não são suficientes para enfrentar crises complexas.
Ao sistematizar essas experiências, o estudo reforça que investir em comunicação comunitária é fortalecer a democracia, reduzir desigualdades e preparar o país para futuras emergências sanitárias.