As ondas de calor registradas no Brasil nos últimos 20 anos estiveram associadas a cerca de 120 mil mortes, segundo um estudo divulgado nesta quarta-feira (17). A pesquisa, conduzida por especialistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA), aponta que o agravamento dos eventos de calor extremo já produz impactos significativos sobre a saúde pública e amplia a pressão sobre o Sistema Único de Saúde (SUS).
O levantamento analisou dados de mortalidade e internações hospitalares em todo o território nacional e concluiu que aproximadamente 0,6% dos óbitos registrados no período, excluindo acidentes e violências, podem ser atribuídos à exposição a ondas de calor. Os pesquisadores identificaram uma relação consistente entre temperaturas extremas e aumento do risco de morte, especialmente entre idosos, mulheres, pessoas com menor escolaridade e pacientes com doenças respiratórias.
A pesquisa também constatou que a maior parte dos 5.566 municípios avaliados apresentou crescimento tanto na frequência quanto na intensidade das ondas de calor ao longo das últimas duas décadas. Para os autores, o cenário reforça a necessidade de políticas públicas voltadas à adaptação climática e à proteção da população diante do avanço do aquecimento global.
Segundo a pesquisadora Beatriz Oliveira, da Fiocruz, um dos diferenciais do trabalho foi reunir, em escala nacional, informações sobre frequência, intensidade e duração das ondas de calor e relacioná-las aos impactos sobre internações e mortalidade. De acordo com ela, o estudo aprofunda o entendimento sobre os efeitos do calor extremo na saúde dos brasileiros.
Os resultados também mostraram que os impactos variam conforme as características sociais da população. A análise identificou um aumento proporcionalmente maior do risco de morte entre pessoas com menor nível de escolaridade, evidenciando a influência das desigualdades socioeconômicas na exposição aos efeitos climáticos.
No campo das internações hospitalares, os pesquisadores verificaram crescimento dos atendimentos por doenças respiratórias e geniturinárias durante períodos de calor extremo. Casos de pneumonia e insuficiência renal figuraram entre os principais problemas associados às altas temperaturas.
De acordo com o estudo, o estresse térmico pode comprometer o funcionamento dos sistemas respiratório e cardiovascular, favorecendo processos inflamatórios e agravando doenças já existentes. A desidratação também aparece como um fator relevante para o aumento de complicações renais.
Entre crianças com menos de 10 anos, as gastroenterites, caracterizadas por quadros de diarreia, foram as causas de internação mais frequentemente relacionadas às ondas de calor em todas as regiões do país. Os pesquisadores apontam que a maior vulnerabilidade à desidratação, associada às alterações na qualidade da água e na conservação dos alimentos durante períodos quentes, pode explicar esse resultado.

Já entre os idosos, o estudo identificou maior sensibilidade a doenças respiratórias, renais e metabólicas, incluindo diabetes. Os autores observam que a redução da capacidade de regulação da temperatura corporal e a presença mais frequente de doenças crônicas tornam esse grupo mais suscetível aos efeitos das altas temperaturas.
A distribuição dos eventos de calor extremo, contudo, não ocorreu de forma uniforme pelo país. Enquanto as regiões Norte e Centro-Oeste registraram episódios mais frequentes e duradouros, o Sul e o Sudeste apresentaram ondas de calor mais intensas em relação às médias históricas locais.
Para Maurício Guerra, diretor de Meio Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e integrante do projeto ProAdapta, os resultados demonstram que a adaptação às mudanças climáticas tornou-se uma medida urgente para reduzir riscos à saúde da população. Segundo ele, iniciativas voltadas à ampliação da arborização urbana e ao resfriamento das cidades fazem parte das estratégias adotadas para enfrentar o problema.
Metodologia empregada
O estudo foi desenvolvido em três etapas. Inicialmente, os pesquisadores mapearam a ocorrência das ondas de calor no Brasil entre 2000 e 2019, considerando indicadores como número de eventos, duração, intensidade e quantidade de dias sob calor extremo. Para caracterizar uma onda de calor, foi adotado o critério de pelo menos dois dias consecutivos com temperatura acima do percentil 95 da média histórica.
Na segunda fase, foram analisados os impactos dessas ocorrências sobre as internações hospitalares registradas pelo SUS. A avaliação considerou dados de 680 municípios com séries históricas consideradas mais consistentes entre 2010 e 2019.
Por fim, a equipe investigou a associação entre calor extremo e mortalidade, levando em conta fatores climáticos e características sociodemográficas da população, o que permitiu estimar o número de mortes atribuíveis às ondas de calor ao longo de duas décadas.
Medidas preventivas
Os autores defendem o fortalecimento de sistemas de monitoramento e alerta para eventos de calor extremo, além da ampliação de campanhas de orientação à população e do aprimoramento da capacidade de resposta do SUS.
O estudo também recomenda a incorporação sistemática de informações climáticas às ações de vigilância epidemiológica e ambiental, com o objetivo de identificar períodos de maior risco e antecipar medidas de proteção.
Segundo os pesquisadores, a adoção dessas estratégias pode contribuir para reduzir os impactos das ondas de calor, especialmente entre crianças, idosos e grupos socialmente mais vulneráveis, que concentram os maiores riscos observados na pesquisa.