A decisão do presidente Lula (PT) de proibir a comercialização do foie gras no Brasil parece ter agradado nada a agroindústria francesa. Pouco tempo após sancionada, a lei repercutiu de forma negativa na Europa e irritou os maiores produtores globais do produto feito a partir do fígado de pato ou ganso, onde foi comentado até uma possível violação no acordo União Europeia-Mercosul.
A lei foi publicada no Diário Oficial da União nesta sexta-feira (24), e prevê a proibição da produção, importação e venda do foie gras em território brasileiro. Em caso de violação, a pessoa poderá responder por crime de maus-tratos aos animais, visto a forma cruel que as aves passam para a fabricação do produto.
Conforme informado pela imprensa francesa, ainda nesta tarde, o Comitê Interprofissional de Palmipedes para Foie Gras (Cifog) se manifestou contra a decisão do atual presidente e declarou que a medida é a ‘primeira violação‘ do recente acordo de livre comércio entre o Mercosul e os países da União Europeia. A delegação representa os interesses da maior produtora mundial de foie gras, que é francesa, atrás apenas da China, a segunda maior produtora e consumidora do alimento no mundo.
De acordo com o comitê, o mercado brasileiro representa um número significativo nos negócios da indústria francesa, visto que o país lucra em quase 1 milhão de euros com a comercialização do produto. A medida é vista como alerta, segundo os produtores, pois abre margem para outros produtos europeus serem abolidos do Brasil futuramente.
O que é o Foie Gras?
O foie gras (‘fígado gordo’, em português) é o resultado do fígado do pato ou ganso no estado mais gorduroso possível. Ele é feito a partir da gavage, o processo onde produtores inserem um tubo na garganta das aves, forçando o crescimento do fígado com o excesso de alimentação. Nessa produção, o fígado do pato ou ganso pode atingir até 10 vezes o tamanho natural do órgão.
A produção gera debates no Brasil há pelo menos uma década, já tendo sido proibida a comercialização na cidade de São Paulo, em 2015, durante a gestão do ex-prefeito Fernando Haddad (PT). Pouco tempo depois, a lei da época foi derrubada e o produto voltou a ser comercializado em grandes restaurantes da capital paulista.
Produção humanizada
Segundo historiadores, o foie gras teve origem séculos atrás, com a migração natural de patos, gansos e aves aquáticas na Europa, que se alimentavam por conta própria, além do necessário, para escapar de uma possível fome no inverno. Por conta do excesso de alimentação, o fígado das aves era retirado mais gordo que o esperado quando encontrado por caçadores.
Apesar da argumentação de movimentos ecoconscientes, que buscam uma produção ‘humanizada’ do produto, como o francês ‘faux gras‘ (feito a partir de gordura vegetal), especialistas ao redor do mundo já afirmaram que a produção natural do foie gras, cerca de 10 vezes maior que o fígado natural, é praticamente inviável.
