Agressões simuladas contra mulheres em vídeos publicados no TikTok passaram a ser investigadas pela Polícia Federal (PF). O material fazia parte de uma “trend” na qual homens encenavam atos de violência, como socos, chutes e até facadas, em situações fictícias de rejeição amorosa. O inquérito foi instaurado após denúncias sobre a circulação do conteúdo na plataforma.
De acordo com a corporação, também foi solicitado ao TikTok que preservasse os dados das contas envolvidas e retirasse os vídeos do ar. Durante a análise inicial, agentes federais identificaram outras publicações semelhantes, que igualmente foram reportadas e removidas.
Na segunda-feira, a Advocacia-Geral da União (AGU) informou ter acionado a PF para investigar o caso. Segundo o órgão, os vídeos tiveram origem em quatro perfis da rede social. Embora o material já tenha sido apagado, os responsáveis pelas postagens poderão responder por incitação a crimes como feminicídio, ameaça, lesão corporal e violência psicológica contra a mulher.
Em nota, o TikTok afirmou que os conteúdos violavam as Diretrizes da Comunidade da plataforma e foram excluídos após identificação. A empresa acrescentou que equipes de moderação continuam monitorando a rede para localizar eventuais publicações relacionadas ao tema.
Especialistas apontam que conteúdos desse tipo têm se difundido em ambientes virtuais ligados a grupos conhecidos como “machosfera”, redpills e incels, comunidades nas quais alguns homens, alegando frustração ou injustiça nas relações afetivas, propagam discursos misóginos e, em alguns casos, defendem violência e discriminação de gênero.
Criminalização da misoginia
Para a militante da Articulação de Mulheres Brasileiras e professora da Universidade Federal do Pará, Eunice Guedes, a disseminação de discursos misóginos ganhou força na última década, impulsionada pela ampliação do alcance das redes sociais.
Segundo ela, embora essas ideias já existissem, atualmente encontram maior espaço de circulação e apoio em diferentes ambientes, inclusive com acesso a recursos e visibilidade que antes não tinham.
A pesquisadora defende a criação de mecanismos legais específicos para punir a misoginia, mas ressalta que a resposta ao problema precisa ir além da esfera penal.
“Não basta apenas punir. É necessário investir em prevenção, em mudança de paradigmas e em transformações culturais que enfrentem essa lógica de violência contra mulheres”, afirma.
O debate ocorre em um contexto de crescimento da preocupação com a violência de gênero no país. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública indicam que o Brasil registra, em média, quatro casos de feminicídio por dia.
Como as mulheres podem denunciar

Casos de violência contra a mulher podem ser denunciados à Central de Atendimento à Mulher pelo telefone 180, serviço gratuito que funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana.
Também é possível registrar denúncias pelo WhatsApp no número (61) 9610-0180 ou pelo e-mail [email protected].
As vítimas podem procurar ainda delegacias especializadas de atendimento à mulher (Deam), delegacias comuns ou unidades da Casa da Mulher Brasileira.
Outros canais disponíveis são o Disque 100, destinado a violações de direitos humanos, e o telefone 190, para emergências policiais.