A cidade do Rio serviu, no último final de semana, de palanque político para o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidatos à presidência da República nas eleições deste ano, oficializarem apoio aos seus respectivos postulantes ao Governo do Estado. Na capital, eles utilizaram estádios para concentrar a mobilização do eleitorado, cada um em uma zona diferente, discursando para públicos distintos. Mas até que ponto a escolha do espaço se diferencia do corpo a corpo nas ruas? Por que a escolha de um estádio ou ginásio? Entre as dúvidas, o aumento de preferência por esse tipo de local se destaca no Brasil como nova formação de tendência, ou, no mínimo, tentativa de resgatar o passado.
O questionamento surgiu após os grandes eventos que ocorreram no Rio, na manhã do último dia 21, quando Lula e Flávio compareceram nas mobilizações de Eduardo Paes (PSD) e Douglas Ruas (PL), que se organizaram pela capital. O petista e o ex-prefeito do Rio se reuniram no estádio Moça Bonita, em Bangu, na Zona Oeste, enquanto o senador e o presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) marcaram presença no Maracanãzinho. Antes disso, o petista já tinha promivido um evento político, em São Paulo, no estádio municipal 1° de Maio, em São Bernardo do Campo, berço do partido no país.
Para esclarecer o motivo do uso dos estádios em campanhas, o cientista político da Universidade Federal Fluminense (UFF), Carlos Sávio Gomes Teixeira, afirma que a relação entre a política e outros setores da sociedade sempre foi de proximidade ao longo da história do Brasil, principalmente ao falar de religião e futebol.
Para o especialista, seria ‘estranho’ se duas das maiores expressões da brasilidade não estivessem relacionadas à política. Ele comenta que, ao longo das décadas, os estádios foram utilizados por figuras políticas pela proximidade que eles têm com a população, e citou exemplos desde Getúlio Vargas até Lula e Jair Bolsonaro.
Carlos Sávio reconhece, no entanto, que o uso dos estádios para fazer campanha foi trocado, nos últimos anos, além das ruas, também pelo espaço que as redes sociais passaram a proporcionar.
“Esse espaço de política foi sequestrado nas últimas duas décadas pelo espaço virtual. Não é um fenômeno só da política, é da sociedade e da cultura”, disse.
Mudança de ciclo e volta ao passado
Mas apesar do avanço expressivo do mundo conectado, para o especialista, a sociedade tende a voltar a apreciar o discurso político feito nos estádios e ginásios, visto que a mesma se comporta de forma cíclica. Mesmo que deslumbrada com as possibilidades que a internet proporciona, o espetáculo pode voltar a ser apreciado, caso os candidatos saibam como usá-lo.
“Eu diria que a maior parte das pessoas vive hoje as suas experiênciais individuais, sociais, amorosas e políticas nos smartphones. Então, durante um período, isso fez com que a comunicação desses candidatos mudasse para as redes sociais. É importante entender o processo de ciclos que a sociedade experimenta. Os comícios em estádios podem voltar, assim como voltaram neste início de campanha”, explica o especialista.
A tradição norte-americana dos estádios

Nos Estados Unidos, o uso de arenas e ginásios esportivos como palcos políticos é uma tradição consolidada desde o século passado. As convenções nacionais dos partidos Democrata e Republicano transformaram esses espaços, ao longo dos anos, no ápice do espetáculo eleitoral, onde candidaturas presidenciais são oficializadas sob forte impacto visual, com chuva de balões, torcidas organizadas e transmissões ao vivo planejadas para a televisão.
Mais do que abrigar milhares de apoiadores em eventos de massa, a escolha por arenas esportivas cumpre um papel estratégico de contemplar a cultura que se formou entre os norte-americanos. O formato garante controle rigoroso de acesso e segurança, enquanto a arquitetura dos ginásios, projetada para amplificar o som e focar as luzes no centro da quadra, projeta uma imagem de força para o eleitorado.
A limitação do espaço (e do debate)

Da ida ao estádio até a motociata, o cientista político defendeu que o eleitor brasileiro possui diferentes formas de se aproximar da figura política que pretende apoiar, principalmente durante o período eleitoral.
“De alguma maneira, todas elas fazem parte de uma mesma dinâmica: formas de se aproximar do eleitor. Hoje em dia, com os chamados ‘cortes’ e ‘memes’, a internet é utilizada para preencher esses espaços”, concluiu.
Questionado se o uso do estádio limita o debate entre ideias, Carlos Sávio resume que o política feita nesses espaços não se distancia tanto da já praticada nas ruas, por meio de caminhadas e passeatas, ou dos vídeos curtos (os chamados cortes) que são vinculados na internet.